Setembro 16, 2009 por DKB

Sugiro que fique com os quadros, o baú menor, tiro de lá minhas coisas num instante, metade das conservas de Avaré que tanto te deliciam (ainda me impressionam seus suspiros quentes daquele deleite sem culpa), e os livros, os livros se misturaram tanto, (menos que nós mesmos), já não sabemos de cada um a quem pertence ou quem de fato o leu, não, deixa este que ainda não terminei, é, sim, terminar terminei mas queria ainda reler uns capítulos, deixa que te entrego logo, não esqueço. Sugiro que nos revezemos em nossos bares prediletos, pode ficar com as sextas, ou os sábados, se preferir, no Tião, eu fico com a sinuca e depois a gente troca se for o caso, você pode ficar com o quilo que eu detesto aquela comida, vou ver se aprendo a cozinhar alguma coisa, aliás, você podia me ajudar nisso, me dar umas aulas, umas dicas, sei lá, tá bom, depois a gente vê isso, não, essa luminária foi minha mãe quem nos deu, melhor deixar aqui mesmo, sabe, andei pensando em como vai ser daqui pra frente, ah, desculpe.

Olha, eu sugiro que você mobílie um apartamento modesto, não, sabe que em nada me agrada aquele do Pari, o da Vila é muito mais o seu jeito, claro que é pra você, por isso insisto na Vila, próximo daqui, tranqüilo, arejado, moderno sem frescura, é daqui do bairro que seus caminhos se descortinam a cada dia, sei que não quer alterações dessa ordem, além do mais o aluguel é mais barato, temos amigos ali no prédio, poderíamos… Sabe, pra ser bem sincera sugiro coisas e lugares, sugiro cores e caixotes mas preferia mesmo é que ficasse, que pensasse mais um pouco, dou o tempo que precisar, preferia é que não tirasse nunca seus chinelos (que só usa vez ou outra no pior do inverno) da margem do tapete, que mantivesse seus apetrechos de barba bem onde estão, nos organizamos tão bem aqui nesse espaço, preferia que continuasse se adiantando ao despertador, interrompendo o melhor do meu sono com seus braços de fera obstinada, que sujasse toda a louça e a deixasse por lavar, que durante os dvd´s do fim de semana me emprestasse um desses ombros para anteparo, que seguisse traçando o futuro daqui mesmo, comigo.

Agosto 2, 2009 por DKB

Era assim então que eu me permitia, lasciva, impregnar-me de algo que era, em essência, ausência, uma recordação gasta por sóis e datas que eu rearranjava num puzzle de encaixes ambíguos,  inventava alguma continuidade quando só o que havia eram lacunas feitas de silêncio e espera.

Agosto 1, 2009 por DKB

Entre os tantos tons de cinza que eu vejo, crio recrio pra coleção de outono inverno ou pra viscosidade do calor de merda que ainda há de fazer por aqui, eu atravessava a cidade tentando voltar (voltar, juro) quando de repente uma variação: sinal verde – acelerei com gana.

Eu estava errada, amor.

Na perpendicular os velozes cada qual no seu direito, direito de ir, de ir tão rápido quanto possível, de ir, de vir, vir de encontro a mim, vieram.

Julho 2, 2009 por DKB

“Perdemos a maior parte de nossa juventude por conta das inabilidades. (…) Eu ainda não havia aprendido que existem duas humanidades muito diferentes, a dos ricos e a dos pobres. Precisei, como tantos outros, de vinte anos e da guerra para aprender a me manter na minha categoria, para perguntar o preço das coisas e dos seres antes de tocá-los, e em especial antes de desejá-los.”

(Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao fim da noite)

Junho 23, 2009 por DKB

“Eu queria poder escrever. Mas em mim só encontro o silêncio. E por isso, eu não sei escrever. Escrever, é claro que eu sei. Só não sei escrever um livro. Não consigo encontrar as palavras. Não consigo encontra as palavras, nas palavras. Só encontro a minha voz, no que penso. Mas o que penso, ninguém ouve. O que eu penso é silêncio.”

(Lourenço Mutarelli, O cheiro do ralo)

Maio 31, 2009 por DKB

“E acontece-me pensar que vivo contigo porque me sinto em paz no teu sótão, engolido pelas coxas separadas que me protegem do sofrimento e do medo. E ao escutar-te, ao sentir a tua impávida, animal respiração tranquila, convenço-me de que durarei, intacto, sem fim, a bordo do teu corpo, respirando o suor da manhã nos teus sovacos barbeados.”

(António Lobo Antunes, Auto dos danados)

Maio 9, 2009 por DKB

“Margens, bravas, vagas”

(Madredeus)

Porque meu corpo hoje, querida, é um furor evanescente que se perde nas dobras cinzentas da memória, se dissolve na ausência de esquinas desse horizonte uniforme, do sol que só vem para depois partir, desaparecendo sob o mar salgado que guia a aridez da minha extensão até as pedras, então eu me reclino um pouco sobre o porta retratos que ainda me assegura os contornos do teu rosto e faço-te as perguntas que não respondes, que não me respondeste nunca, aí me calo constrangido pelo rigor do silêncio que me devolves sem muita ternura, só com a compreensão fria com a qual eu ainda hoje luto para me habituar, preservando as recordações nesse altar que construí para ti, nessa plataforma sacra que protejo do pó e da guerra, querida, impedindo que a opacidade do tempo furte o mínimo grau de brilho dos teus cabelos, que manche tua pele de anúncios de senilidade ou amarele as páginas do Drummond que me deste no aniversário de quarenta e dois, ou três, perdão, querida, as datas têm se confundido na languidez dessa espera, já me fogem os verbos e suas flexões acertadas, os nomes das ruas e das tantas cidades que visitamos, querida, perdão.

Abril 29, 2009 por DKB

eu grito, hesito, sou bruxa, não, acudam!

eu falo enquanto sonho cômodos divididos, espécies diversas engolindo umas as outras, na parede: uma janela

eu estou aqui mas só sou lá, no outro lado da janela, uma fresta no vidro nem de todo cerrado deixa escapar minha existência

pro outro lado

eu vazo desse corpo lúdico

morreu, o carro, querido, foi um espasmo

enquanto isso o gato, um gato

atravessa a parede

pela porta

que eu não tinha notado.

(e agora um dejà-vu, andei postando essas linhas desde… os pulsos, o fogo, amarras, ah, chega!)

Abril 12, 2009 por DKB

E então eu, que ia aos poucos me familiarizando com o inescrutável de seus espasmos, abandonando o vício da taxonomia das emoções alheias, libertava-me do que outrora sondava como se mensagem fosse, e tocava enfim a matéria dos acontecimentos, outorgando ao tato a busca pela verdade que eu perseguia incansável,

mas em troca pedia

sacrifica sua boca ao golpe sem mestre que é o beijo que lhe ofereço

encolhe sua fome a esse lamento amargo que verto sem censura

resigna seu movimento à cela escura que é meu copo sem bordas

dispensa a sordidez dos seus seguidores e vem só ao meu encontro, e vem despido de barulho, vem pobre de pranto que eu desfilo meu arsenal de verbos de ligação

já que não sei o que é ser uma

apita seu arbítrio e ouve minha surdez recrudescida

libera seus soluços se o que resta é nada, que eu te acolho num conjugar de vazios que será, então, meu e seu

bota as cartas sobre os lençóis pra que a artimanha seja de fato nova

suporta meu cansaço na perfeição de seus ombros assimétricos

uiva sua rouquidão na austeridade da cerimônia que será cada manhã ofuscada pela inconveniência da luz

despreza a volição megera que me arrebata

ao me ver

pronta pra sairmos

esquece tudo isso,

elogia-me o vestido, as sandálias, um traço qualquer que te agrade,

e,

a despeito desse sermão oco que eu, sem rumo, sem substância, prego por aí,

afirma seus desejos

sem deixar a mim

qualquer opção.

Abril 8, 2009 por DKB

Mas era mesmo eu quem teimava em assegurar-te do incerto, interrompendo as pausas com adjuntos adverbiais conclusivos, inscrevendo o teu espaço na minha finitude exata enquanto você contribuía à continuidade precisa com o silêncio de um outro trago, com aquele afago longo a deslizar por meus cabelos negros, acompanhando com condescendência as ondas em teu modo terno de pedir-me não digas nada.