Quanto àqueles pretextos sob os quais lhe visitava – em geral na escuridão das tardes umedecidas pelo acalento de uma garoa aguda – devo dizer que eram, em essência, sinceros. Devolver-lhe o casaco emprestado em virtude do repentino outono que se pôs a preencher a ausência de temas após o cessar da chuva do fim de semana anterior ou provar o assado de trigo ou o molho que eu alegava desconhecer até então, eram pretextos, confessei já no início, sinceros, também disse, pois a verdade das palavras é um xadrez complexo de aberturas e movimentos dum conjunto finito de possibilidades que se rearranjam permitindo que desfrutemos o pasmo – alegre ou não – pela escolha insuspeitada que faz o outro, maquinando os próximos passos no impenetrável do universo de sua criatividade. Mas naquela época não constava ainda de nossos repertórios – hoje vastos – a imagem que o outro nos oferece quando observados pelo prisma grosso das lágrimas que ensaiam essa valsa disritmada pela textura suave do caminho que as conduz até a simplicidade desses nossos sorrisos.

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