maio 1, 2015

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.“

José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira

março 6, 2015

fevereiro 18, 2015

Era uma força, um arrebatamento imperativo que me levava até aquele quarto escuro. Já não sabia se era da minha vontade estar ali, fato é que pra lá sempre voltava, fosse de cabeça erguida, fosse de olhos mareados e coração aflito. Mal entrava e a porta se fechava numa violência definitiva, me encerrando numa solidão que não era de circunstância, mas de natureza. Uma natureza morta, talvez, um jogo de espelhos sem som. Eu cantava num beco sem eco, era isso. Passei com cuidado o vestido estampado – não convinha queimar-lhe em qualquer outro estado. Estiquei com a perfeição que pude o tecido num cabide de madeira. Queria que aquele final fosse algo pra além de despedida, que tivesse um acalento estético, no mínimo. E assim fiz. As chamas subiram e consumiram todo o conjunto, restando apenas aquela angústia de uma quarta-feira de cinzas chuvosa. Insaciável, vasculhei meu claustro à guisa de novos desapegos – era preciso que mais matéria desfeita me assegurasse de alguma liberdade possível. Ilusão ou respaldo, era esse meu único anseio. Escrever um livro eu não posso, que minha arte é antes parir textos aos solavancos, nuns soluços compassados a uma realidade que desconheço. Mas como se pode ter alguma continuidade assim? É a pergunta que faço. Que me faço. Os minutos somam anos, que passam envelhecendo minha sombra num misto de alívio e mal-estar, e aqui eu me mantenho, sobre pés fatigados, resignados a uma recuperação sempre inacabada. Um porvir duvidoso de defeitos ofuscando talentos, um vai e vem de expectativas cretinas, admito. E uma imagem em preto e branco borrada do suor de outro tempo, num altar translúcido e inalcançável, mas ainda P&B.

setembro 20, 2014

Enquanto procuro me encontrar, meu bem, enquanto persigo uma sombra gasta que me escapa a cada bote, esqueço de ti.

Me afasto de teus carinhos com medo de enjaular-me em teu conforto – que jamais será meu, por mais que me ofereça a ele, que lho ofereça a mim.

Um cubo, esse teu amor.

Saí num susto – um soluço da vida – da masmorra em que seguia esperando. Cheguei à superfície e não pude sequer cegar-me com a luz: andei rumo a algo que, embora desconhecesse, já pressentia.

Andei sem levar comigo o cantil de água dos viajantes. Andei sem o deslumbramento que o caminho ocasiona aos atentos. Andei simplesmente. Só andei. Andei só.

Se não importava chegar, tampouco importava andar. Seguia uns passos autônomos que me guiavam pela vida de promessas de.

As respostas estão todas em você, era o que me diziam. Acreditei que podiam mesmo estar, mas continuei – continuo – sem ideia alguma de como acessá-las.

maio 25, 2014

“Muitos se recusarão a acreditar que uma criança de onze anos incompletos possa sentir dessa maneira. Não é para esses que escrevo, mas para aqueles que conhecem melhor o ser humano. O adulto, que aprendeu a converter em conceitos uma parte de seu sentimento, menospreza tais conceitos na criança, e termina por opinar que não existiriam também os sentimentos que lhe deram origem. De minha parte, posso dizer que poucas vezes na vida vivi e padeci tão intensamente como naqueles tempos.”

(Demian, de Hermann Hesse)

fevereiro 20, 2014

Ainda hoje eu desconheço as retas, mas já improviso atalhos. Porque me sinto pouca se me alegro com suas migalhas indecisas. Só sigo aprendendo a.

novembro 26, 2013

Tem noites que são frias. Ainda que o mercúrio transborde dos termômetros, são geladas de um gelo que não volta a ser água. Tem noites que são densas, mesmos quando as vozes vizinhas são rarefeitas e animadas. Tem noites que são hoje.

Tem dias que terminam e dão lugar a noites frias, a noites fumacentas em becos bem decorados. Tem noites que são glaciais a despeito desse suor que nos escorre pela testa – e desce não se sabe pra onde. Tem noites em que só se treme, que são óbvias, laicas, e vem aos pares. Que se sucedem sem nunca terminar. Que esmorecem sem trazer alívio, num suspiro último que não chega a ser fim.

Tem noites que são transe com pouca terra, argila seca de lugar nenhum.

Noites de joia falsa, em que todo apoio é alça de malas que não se pode levar para onde não se pode mesmo ir. (Me empresta essas luvas que não sinto mais as mãos…). (São luvas de boxe, essas, é pra outro tipo de inverno que servem).

Daqui pra frente a história era outra

junho 28, 2013

Pq vc é o maior dos excessos que me atravessa. Pq vc foi o maior destes excessos, quase lúgubre, isso sim. Sem vc eu não soube estar em mim, inspirava em repetições cadentes sem expirar jamais, fiz do meu próprio corpo a clausura de algo incompreensível, como um desejo ruidoso de fim da tarde, saudades de casa. Em festa de criança, balão prestes a estourar.

O de praxe entre nós: seus excessos me esgotam. Eu, vou-me embora.

de volta, ainda que tarde

fevereiro 4, 2013

era um rasgo ainda amargo que ficara na ponta dos dedos, um jeito rude de não querer ou não conseguir responder nada. Um aceno, no máximo. Outra omissão na história do omisso. Era um voto de compensar na próxima vez. Na próxima vez que.

A Ilha de Páscoa e seus totens

abril 4, 2012

A fé que professava não era a sua, meu bem. Naquela época difusa de lacunas silenciosas ou iradas. Hoje, nesse frêmito de dor sem medo. Naquela época de escusas indecisas; hoje, nesse dia claro de dor sem medo.

Aquilo tudo que eu não te dizia, meu bem, você sabe. Aquilo tudo que não te digo hoje, e você ainda sabe. Aquilo tudo que você conhece sem reconhecer, que você fareja sem desconfiar, que eu não digo – que provavelmente não direi nunca -, embora já não oculte.

Enquanto eu lavava com esmero a alma que se formou em algum lugar em mim, enquanto você alimentava a beleza andrógina de seguir um caminho pensado, enquanto decifrávamos mutuamente esses planos incompreensíveis, éle, algo se rompeu. Num ruído seco de fenda amortecida, algo se rompeu.