Archive for setembro \29\UTC 2007

Down em Mim

setembro 29, 2007

“Outra vez vou me esquecer /pois nessas horas pega mal sofrer”

(Agenor de Miranda Araújo Neto)

Mãos suadas, dentes rangendo, cruéis, nocauteados. A voz que não para, fala, teoriza sobre tudo, sobre nós. Essa voz que já pressinto ausência, ausência presente em cada momento automático – até a cauterização. Pego um cigarro, ofereço outro. Já disse que parei com essa merda. Droga, piorei tudo, desculpe, continue. E se eu morresse agora? Amanhã? Para, ouve. E se não for nada disso? É claro que é, idiota, não é questão de adivinhar, é o óbvio. É só observar a postura dela, essa entonação que ataca e se explica quase sem querer, os gestos pensados. Caralho, será que se eu digitar caralho no Word ele sublinha? De vermelho? Caralho, as palavras não fazem mais sentido. Ou eu que não ouço mais, nossa, imagina como é ser surdo, ia ter que ver filme nacional com legenda, ficar escrevendo recadinho, aprender aquela linguagem que todo mundo acha que sabe, não, para, você tá ouvindo tudo, só não entende, animal. Não, não, isso é outra língua. Para, presta atenção, é só falta de concentração. Ah, falta de concentração, sempre o mesmo problema, já teria me formado não fosse por isso, droga, o que importa a faculdade, ouve isso, agora. O que é isso, essa insinuação de lágrima, será que é ao contrário, sou eu que tô terminando, não, porra, não pode ser, eu nem disse nada ainda, será que é por isso, diz algo simpático, rápido, vai, qualquer coisa, pelo menos sai dessa dúvida, diz logo, qualquer coi… Vamos pedir alguma coisa pra beber? Silêncio. Droga, acho que não era o momento, o que quer dizer essa cara, merda, devo ter dito essa bosta na parte mais importante do assunto, Garçom! Duas vodkas, por favor.

Silêncio.

Vodka, Obrigado, você pode trazer mais gelo?

Gelo, Valeu.

Merda, sou um cretino mesmo, agora que interrompi vou ter que remendar de algum jeito, essa conversa tem que acabar logo, já tá vindo essa tontura, ou eu que tô bebendo rápido demais, droga, não tá rolando ouvir sem vodka, acho que já peço outra, ou outras, sei lá, pra não interromper de novo, já vi que a conversa é longa. E se vomito tanta vodka? Aí que vai se ridículo, “Olha, a gente termina de terminar amanhã porque eu já tô com a cara cheia, é…, sabe, não tá rolando agora, você pode lá pelas três?” Bosta, nem isso vai dar, amanhã tô com o dia cheio, a gente ia ter que terminar na quarta, merda, para de pensar um pouco, olha lá, já estamos conversando de novo, agora vê se ouve alguma coisa, sai desse mundinho e ouve um pouco. Mundinho, mundo da lua, quando será que a gente pára de perguntar pra mãe o que significa uma expressão e simplesmente entende o que ela quer dizer, tipo, porque é obvio, é tipo uma metáfora, é assim, meio auto-explicativo porque tem relação com uma outra coisa que você já sabe o que é, sei lá, depois pergunto pra cunhadinha mais nova se ela entende essas coisas, merda, a gente vai terminar agora, não tem mais cunhadinha nenhuma. Ainda por cima vou ficar sem família, na solidão, nessa cidade de merda, caralho, o que que eu vou fazer o dia todo, à noite, esse verão que não acaba, é, o Cazuza já tinha pensado nisso,

“Eu não sei o que o meu corpo abriga/

nessas noites quentes de verão”,

ah e também tem a parte do matar ou morrer no calor, como é que é, merda,

é…

fugiu.. era…

eu não sei o que o meu corpo, não, essa parte é o começo, já foi. Será que é o refrão?

Haha, tem a outra parte do bêbado no banheiro, ele pensou nisso também. Afe, essa parte nem é dessa música, tô misturando tudo. Não, é sim, claro que é.

Fodeu!

Mas e aí, fala você também, eu sei lá… nem sei mais bem o que tô dizendo, me ajuda… é… ah, fala um pouco, eu… acho… sei lá, eu preciso pensar mais um pouco…

Isso, parabéns, infeliz, agora fica com cara de cu porque não sabe nem qual era o assunto. A gente ia terminar… não, mas pode não ser isso, melhor falar um bagulho mais genérico, vai que nem é isso. Putz, acho que é o momento pra soltar tipo um “Eu gosto de você”, sei lá, acho que é meio coringa, assim, vale sempre, quer dizer, não o gostar, mas dizer, ah, foda-se, merda, ai, não agüento ver essa cara de tô-esperando-você-dizer-alguma-coisa-e-quase-desistindo-porque- parece-que-você-não-ouviu-uma-palavra-do-que-eu-disse-(como- sempre). Haha, como sempre. Bosta, e a minha fala, luz, câmera, ação, e eu travo! Não pode ser, eu sempre sei o que dizer, por que agora não? Ah, que escroto, quem eu tô querendo enganar, eu nunca tenho a menor idéia do que responder nem quando me dizem bom dia. Isso sem contar aquela vez do boteco que a mesa do lado… para, porra! Pensa e diz alguma coisa. Não dá? Então diz sem pensar mesmo, pior não vai ficar. Mas o que? O que? Mais o que? Que “mais”, merda, eu não disse nada até agora, não tem “mais”. Ah, teve a parte da vodka, será que isso conta? Esquece a vodka, diz alguma coisa! Isso é tipo ficar pensando num livro todo dia e o dia que alguém te pergunta o nome você não consegue lembrar. Na hora claro, porque é só a pessoa ir embora, convencida de que você não tem a menor idéia de que livro ela tá falando, que o nome volta, como se nada tivesse acontecido. É sacanagem. Tipo agora, podia dizer qualquer coisa, tipo aquele filme que as pessoas sempre perguntam “Você é uma girafa?”, pra testar se o outro fala aquela língua, putz, mais ia ser uma merda perguntar isso, ia parecer que eu não tava prestando atenção. Fala, fala… pensa… vai, qualquer coisa…

Bom, não sei você, mas eu acho que a gente devia terminar agora.

Anúncios

setembro 26, 2007

“La muerte (o su alusión) hace preciosos y patéticos a los hombres. Estos conmueven por su condición de fantasmas; cada acto que ejecutan puede ser último; no hay rostro que no este por desdibujarse como el rostro de um sueño. Todo, entre los mortales, tiene el valor de lo irrecuperable y de lo azaroso.(…)”

Texto Fortuito (Nº 28)  Para Coleção Fortuita (Única – por enquanto)

Foi só depois da chuva que saí. Sentia o ar úmido querendo dizer alguma coisa, dizer aquilo. Precisava correr, fugir da notícia que se impunha, ser mais veloz que o acaso. E fui. Não ouvi nada – só um som inteligível ao longe, não dizia nada. Nada.

Já posso estancar. Estanco. Estanco o tempo, o fluxo, luxo, o ar daquele aparte de verão. Eis que ouço a voz que fala da voz que cala pela mão–que-bate-na-coxa e…

…silêncio.

Silêncio do intervalo… ou… do começo… ou…

… do fim.

“(…) Entre los Inmortales, en cambio, cada acto (y cada pensamiento) es el eco de otros que en el passado lo antecedieron, sin principio visible, o el fiel presagio de otros que em el futuro lo repetirán hasta el vértigo. No hay cosa que no esté como perdida entre infatigables espejos. Nada puede ocurrir uma sola vez, nada es preciosamente precario.”

(El Inmortal, Jorge Luis Borges)