Archive for fevereiro \23\UTC 2008

fevereiro 23, 2008

“sem o jogo não há juiz / não há jogada fora da lei”

(O Exército de um homem só (I), Engenheiros do Hawaii)

Sinto um cheiro já antigo. Percebo, vem da lâmpada do abajur. Fótons que já iluminaram a mesma insônia noutras noites tão perdidas – pensamentos giratórios espanam a rosca da razão: obsessão. Insatisfeita com a preguiça de mates ensaiados, forjo um mundo mais ameno pelas lentes embaçadas num abraço.

Cercada pelas paredes do abismo onde envelheço sem pressa – depressa – abro mão de ser quixote. Pelos dedos escorre uma massa sangrenta que anuncia um novo fim – nono fio por se romper. O desenho das cartas jogadas pelo chão se contorce num bailado improvável – sem trilha sonora.


O medo passou por perto.


Silencio. Silêncio.

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Déficit de Quarto Nascente

fevereiro 16, 2008

Desperto com o meu próprio grito: socorro-corro-corro. No corpo cansado, suor, sede e solidão. Câimbras e angústias. Tateio a metade desocupada da cama – luto secreto por todos que se foram – que num automatismo previsível conduz à mesinha de cabeceira. Tateio. Livro, óculos, relógio, água. Bebo. A sede já se encolhe. Miúda – some.

Afundo a cabeça no cheiro que adivinho ser travesseiro. Os pensamentos acordam. Me vem a criança que pergunta mãe, por que a gente dorme? Pra esquecer um pouco, meu filho. Não devia ter dito isso, devia ter tentado ser mais mãe. Devia ter iludido mais. E me vem o poeta, as contas, a rotina, acendo o abajur.

No silêncio, esbarro em armadilhas que prometem decifrar o vazio. Astuta, repito tal um mantra: vazio é só fome. Vazio é só fome. Vazio não dorme. Ligo a TV. Exorcismos urbanos. Desligo a TV. Fito o telefone implorando algo indefinido. Impotente, finjo respeitar seu silêncio. Penso, leio. Penso, adormeço.

Num vagão de trem lotado por pessoas dos mais variados odores, vê-se um rato cinzento surgir na plataforma. Se equilibra nas patas traseiras. Nas dianteiras, segura um guarda chuva na direita e me aponta com a esquerda. Todos me olham. As gargalhadas irrompem nas gargantas. Socorro. Corro. Corro.

O rato também é canhoto.