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Não Mais

março 3, 2008

Esperava ansioso pelo toque do interfone, o porteiro dizendo está aqui, deseja lhe falar. Sim, sim, eu também quero falar, quero te ouvir – mais uma vez aquela voz tão doce tão rouca dizendo absurdos que não compreendo. Lábios sem batom soprando um tal muro dum tal francês.

Ao passar pela porta, olhará ao redor: nada mudou. Com familiaridade e desconcerto me guiará com seu olhar até as malas que ainda estarão do lado de fora. Então eu as trarei para dentro – te trarei para dentro – oferecerei qualquer coisa que você irá rejeitar, meio sem jeito, pedindo só um pouquinho de vodka, se tiver.

De minha poltrona de burguês comungado, ingenuamente perguntarei como foi a viagem. Você dará aquele sorriso triste de quem ensaiou uma resposta impossível e, esvaziando o copo, dando a impressão de querer mais um pouquinho, se tiver, divagará sobre a ciclicidade do inexorável. Sempre atenta aos meus olhos, ficará levemente ruborizada e selecionará com mais didática cada palavra que pronunciar sempre que lhe ocorrer algo de nosso passado, ou mesmo o contexto desse nosso encontro – último, creio eu.

Minutos depois, visivelmente ansiosa e fingindo esquecer meus hábitos, perguntará se me importo se fumar aqui. Disfarçando a ansiedade e fingindo esquecer meus hábitos, direi que sim, claro, pode fumar, e na primeira oportunidade abrirei uma das janelas, casualmente, abafado aqui.

E amassando a segunda ou terceira bituca, decidirá que já basta desse discurso abstrato e perguntará sobre a minha rotina – da qual já conhece cada pormenor – e de velhos amigos comuns – dos quais se esforçará para lembrar os nomes e os rostos.

Assim conversaremos por algumas horas, até eu sugerir que a gente saia e coma alguma coisa, o que você irá aceitar, pois discretamente fitou todos os lugares onde poderia estar esquecida outra garrafa de vodka, se houvesse.

Chegaremos à decisão de deixar as malas aqui mesmo e iremos ao bar onde, anos atrás, começamos a envelhecer. Eu, sadicamente, passarei todo o jantar adiando o inevitável, até que você decida que chegou o momento.

Sutilmente trêmula, você sacará da bolsa um envelope amassado e meio sujo. Nele, a decisão definitiva, a que faz daquele nostálgico nós dois, provisório. Eu, já acostumado com a idéia, assinarei os papéis como se também sonhasse esse fim.

Depois, cansados, retornaremos ao meu – ao nosso – apartamento. Eu notarei – sem comentar – sua pressa em reaver as malas, e você recusará o convite para ficar quantos dias precisar, chamará um táxi. Nos despediremos cordialmente – com afeto, até – e você partirá daqui pela última vez. Eu, com muitas mágoas e um certo alívio, tomarei sozinho uma cerveja – já sem imaginar o interfone tocando e o porteiro dizendo está aqui, deseja lhe falar.

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