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maio 26, 2008

“O medo é uma linha que separa o mundo”

(Lenine)

Desobediente, numa brusca contração puxei o tapete dali. Uma barata correu prevenida, a poeira se espalhou pelo ar. E achei o que buscava, jazia esquecido no chão, quem sabe há quantos anos, o alçapão que um dia ele me prometeu. Iluminei com cuidado seus mofos e ferrugens; pensei sobre qualquer coisa que pude sentir naquele instante – já nem me lembro bem – e então abri.

Os degraus, já meio apodrecidos, desciam numa seqüência repetitiva, devem ranger, pensei. Se despencarem, chego mais rápido, desejei sem admitir. Devia deixar uma marca na madeira cansada, saquei o canivete do bolso e… mas que marca deixar? ISI, arrisquei numa letra incerta de canhoto iniciante. Uma discreta fumaça subiu punindo meus olhos: a ferida fora cauterizada, triunfou a cicatriz, ISI, palíndromo das terminais.

É hora, desço sem olhar nem pra baixo nem pra cima, invento um plano sem falhas, e sigo. Apoiei meus pés sobre o primeiro degrau, um pé após o outro, num movimento ensaiado e elegante de quem já se prepara há tempos. Sequer me lembro se rangeu. Digamos que sim. A madeira rangeu, vacilando sob meu peso. Segundo degrau. Pé direito, pé esquerdo, obedecendo assim a ordem de começos exemplares. A lanterna se apagou, teimosa, irreversível. Quando meus olhos se conformarem, enxergando o que der pra ver, esquecerei que um dia houve lanterna e os degraus não mais rangerão. Terceiro degrau. Pé direi…

é aqui que a história começa

direi… to… das… aquelas estranhas coisas que… acho… que… aconteceram. Pé direito. A voz ecoa pela primeira vez na escada-túnel-fenda que atravesso feito ______. Lumière. Éteindre, num grito firme e suplicante que suponho ser de um barítono delicadamente alcoolizado. Não compreendo, não respondo. Turn off the light, grita numa nova tentativa. Não há luz, há apenas o escuro de fungos crescendo e a umidade e o lodo escorregadio. Turn off the light. Turn off the light. Ouço um soluço entrecortado. Solidária ao desespero daquela voz – minha única companhia possível – rasgo com esforço uma das minhas mangas. Vendo meus olhos. Vistos, vendidos, vendados. Ouço um suspiro apaziguado.

Isi, sou seu único fio, sua única corda do lado de cá. Continue descendo, faltam 9,3 milhas. Você chega ainda hoje. Mesmo porque não há amanhã. Nunca houve. Houve, Isi? Ouve Isi? Pare! Isso não! Não me chame de Isi! Desculpe, prefere então que a chame… Não! Não, isso não, por favor, Isi está bem. Pode me chamar assim. Como queira, Isi, a corda é seu instrumento. Descia cada vez mais veloz, meus pés já previam cada imperfeição dos degraus. Descia. Descia. E agora, quanto falta? Estou chegando? Ainda podia ouvir o eco de minhas indagações quando irrompeu a voz dizendo: 9,3 milhas. Castigo, falha no tempo, no espaço, não importa, prossigo decidida. Pra baixo, que outra direção? Desço.

Isi, conte-me algo íntimo e sujo. Gargalhada. Você sabe que o que disser não sairá daqui, não sabe? Gargalhada mais contida. E já piedoso: Ora Isi, vamos, conte-me algo. Apenas uma história me vinha à mente nesse instante. Como se minha vida tivesse sido toda ela uma mesma cena. Quando era criança, queria pular corda com as outras meninas. Elas passavam horas ali, treinando um desviar infinito, cansava ficar contando cada pulo. Mas na minha vez, era rápido. Meu corpo era todo matéria. A corda batia em mim e caia irritada no chão. As meninas riam e outra já tomava o meu lugar. Um segundo depois, e eu já havia me arrependido de partilhar tudo o que restava em mim com a voz de um beco que desce. Pois tem aqui sua segunda chance, Isi, frase que vagou até meus ouvidos num harmônico incalculável; frase sem eco, sem testemunhas.

Como chegou até aqui, Isi? Respondi sem muita certeza: Um velho amigo me falou do alçapão. E o que você lhe deu em troca, Isi? Eu o ensinei a passar pelas chamas sem queimar a pele. E você, como veio parar aqui? Estou aqui desde sempre. Um feiticeiro condenou a voz de um delator, mas isso foi há muito tempo, antes do sol nascer pela primeira vez. Naquela época, isso que você sente, ninguém sentia. Descia mais tranqüila, então, os passos num automatismo certo; o corpo, tão cansado, apoiava minha determinação, creditando em mim expectativas que certamente me seriam cobradas pouco mais à frente. Cheguei.

Já não sabia caminhar no plano. Descia degraus virtuais tentando acreditar no óbvio. Bem vinda, minha cara Isi. Parei pela primeira vez desde muito tempo, com calma descansava os pés no chão e adaptava meu corpo a um equilíbrio provisório. Sua voz continua longínqua como antes. Só o eco é diferente. O da sua e o da minha voz. Posso tirar a venda? Silêncio. Tirei a venda. Surpresa, me deparei com o mais profundo breu, aquele que ninguém jamais verá. Girei em torno de um eixo criado para tais emergências, constatando trezentos e sessenta graus de breu. Sentei. Deitei. Uma terra fina que ainda hoje aposto ser vermelha, recobria todo o nada que havia ali. Passado o tempo necessário para se subir ou descer algumas tantas vezes nove milhas, meus olhos ainda buscavam, em vão, qualquer acomodação possível – não havia. Assim, abandonei-me exaurida naquele tapete poeirento e adormeci – enquanto a voz, ainda mais delicada que antes, embalava meu sono com uma cantiga que eu ouvia distante, distante…

Notas da invenção de um personagem inacabado

maio 12, 2008

Emudecida, conduzo meus passos à primeira esquerda: rua sem saída. Meus sapatos resistem, aqui não, aqui não. Insisto, venço as toneladas de solas e couros que me empurram de volta à segurança da avenida principal. Caminho em direção à saída ausente, o adensamento de fumaça e fuligem turva o ar espesso que respiro num esforço calculado. Revisto meus bolsos buscando a chave que não tenho – metal ausente que anuncia o fim. Mas a porta está entreaberta, empurro. Na contra mão da fúria das chamas que descem pela escada, subo desviando das pegadas impressas em sangue que colorem cada um dos degraus. A escada exala um hálito um tanto humano de álcool forte e desejos inconcebíveis – vomito. Quarto andar, é aqui. A porta não existe mais, consumiu-se, resta apenas a abertura na parede divisória. Vacilo como quem já quer outra coisa – provisória. Atravesso, através do avesso, estanco.

Estou na sala que buscava. Nas paredes, chamas, pelo chão, crocodilos acinzentados, nas beiradas, baús sem data. E numa quina, sentado sem conforto, um rapaz fuma um cigarro sem filtro, impassível. Dou um passo à frente, seus olhos me acompanham – imagino ser o filho esquelético que Frida não teve. Na ponta dos pés, descubro espaços entre as escamas vivas e me aproximo de um baú escolhido sem critério. Abro-o apressada, as chamas estão próximas. Xales, livros, papéis, encontro-o: meu velho manuscrito de linhas não justificadas que escolhi resgatar. Sem voz possível, leio a primeira frase. Emudecida, conduzo meus passos à primeira esquerda: rua sem saída. Adivinhando essas palavras, num gesto bruto e preciso, o mexicano arranca a camisa que veste, orgulhoso de expor a pele marcada por cicatrizes cheias de histórias e escoriações sangrentas, purulentas.

Levanta-se altivo e oferece a mão direita ao fogo. Distribui a chama por seu peito, pelos ombros, cruel, pressentindo minha dor ao ver as cicatrizes se desfigurando. Gotas de suor pingam a seus pés, atraindo os répteis sedentos, que, ao tocarem sua pele, são reduzidos a cinzas, desaparecem todos. Saio correndo pelos escombros da sala, mas a escada desabou. Encurralada, apelo ao sacrifício improvável: distribuo pelas labaredas as páginas que seguro. Soluço a cada uma que se esvai. Ajoelho atordoada, sentindo sob as pernas a calçada da avenida principal. Encolhida, ouço o estrondo da explosão. Levanto, e me ponho a caminhar sem rumo.