Notas da invenção de um personagem inacabado

Emudecida, conduzo meus passos à primeira esquerda: rua sem saída. Meus sapatos resistem, aqui não, aqui não. Insisto, venço as toneladas de solas e couros que me empurram de volta à segurança da avenida principal. Caminho em direção à saída ausente, o adensamento de fumaça e fuligem turva o ar espesso que respiro num esforço calculado. Revisto meus bolsos buscando a chave que não tenho – metal ausente que anuncia o fim. Mas a porta está entreaberta, empurro. Na contra mão da fúria das chamas que descem pela escada, subo desviando das pegadas impressas em sangue que colorem cada um dos degraus. A escada exala um hálito um tanto humano de álcool forte e desejos inconcebíveis – vomito. Quarto andar, é aqui. A porta não existe mais, consumiu-se, resta apenas a abertura na parede divisória. Vacilo como quem já quer outra coisa – provisória. Atravesso, através do avesso, estanco.

Estou na sala que buscava. Nas paredes, chamas, pelo chão, crocodilos acinzentados, nas beiradas, baús sem data. E numa quina, sentado sem conforto, um rapaz fuma um cigarro sem filtro, impassível. Dou um passo à frente, seus olhos me acompanham – imagino ser o filho esquelético que Frida não teve. Na ponta dos pés, descubro espaços entre as escamas vivas e me aproximo de um baú escolhido sem critério. Abro-o apressada, as chamas estão próximas. Xales, livros, papéis, encontro-o: meu velho manuscrito de linhas não justificadas que escolhi resgatar. Sem voz possível, leio a primeira frase. Emudecida, conduzo meus passos à primeira esquerda: rua sem saída. Adivinhando essas palavras, num gesto bruto e preciso, o mexicano arranca a camisa que veste, orgulhoso de expor a pele marcada por cicatrizes cheias de histórias e escoriações sangrentas, purulentas.

Levanta-se altivo e oferece a mão direita ao fogo. Distribui a chama por seu peito, pelos ombros, cruel, pressentindo minha dor ao ver as cicatrizes se desfigurando. Gotas de suor pingam a seus pés, atraindo os répteis sedentos, que, ao tocarem sua pele, são reduzidos a cinzas, desaparecem todos. Saio correndo pelos escombros da sala, mas a escada desabou. Encurralada, apelo ao sacrifício improvável: distribuo pelas labaredas as páginas que seguro. Soluço a cada uma que se esvai. Ajoelho atordoada, sentindo sob as pernas a calçada da avenida principal. Encolhida, ouço o estrondo da explosão. Levanto, e me ponho a caminhar sem rumo.

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Uma resposta to “Notas da invenção de um personagem inacabado”

  1. marquito Says:

    bonita “distribuição da chama”. E répteis sedentos. E filho mexicano de Frida esquelético mutante.
    Emudecer nessas horas é fogo, mesmo.

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