Archive for julho \31\UTC 2008

julho 31, 2008

Outra vez me perco das bordas. Xeque – que um bispo negro deslize em minha salvação. Redenção. As bordas recuam a cada toque aflito. Com fuligem na pele, as mãos desobedientes, mancho paredes de quartos e quintos. Xeque – e toda legião se faz servil. O sangue estanca, as feridas cicatrizam. O nó insiste. E me lembro, na penumbra, vejo algo. E pressinto, não, não mais pressinto nada, foi-se. Xeque – e a providência não é mais que provisória. Vou ao fundo, toco sem leveza aquela velha fronteira. Os abalos são ouvidos ao longe. Mate. E todo o branco se faz leal.

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julho 30, 2008

Agora tudo é branco. Nem tanto de paz, mais de falta, mais de menos. Falta de uma frase com o sentido inequívoco de borrar essa alvura, macular o silêncio que ouço por toda a parte. Mas que frase poderia ser dita? Escrita?

Uma vodca, por favor.

Apt. 132, Bloco B

julho 11, 2008

“Encarou-o tenso, colocando no olhar o desafio: eu te vejo mais fundo do que você me vê, porque eu te invento nesse olhar, porque você se torna o meu invento, porque depois de olhar muito dentro eu prescindo da imagem e o meu olhar repleto se basta, como se eu fosse cego, mas tivesse guardado todas as imagens (…)”

(Caio Fernando Abreu – A chave e a porta)

Respiro fundo uma, duas, três vezes. O indicador direito aproxima-se da campainha e recua, temeroso. Ele decerto vai abrir a porta com aquele descaso de quem se recusa a verificar o olho mágico, paralisar por um instante ao me reconhecer, disfarçar – não muito bem – o espanto, se certificar da expressão séria e firme, calcular a voz grave que dirá o que é que você faz aqui? enquanto já lentamente fecha a porta que acabou de abrir, esperando um gesto qualquer meu que o impeça de nos separar mais uma vez por uma porta velha e gasta e cheia de histórias – das nossas histórias – mas eu, vacilante, atrasarei o gesto, então ele reabrirá a porta e me olhará interrogando minhas roupas e minha barba por fazer e eu não terei palavras para explicar minhas roupas nem minha barba por fazer nem tudo aquilo que aconteceu e então ficaremos assim, parados frente a frente, eu pedindo clemência e ele tentando negar sem conseguir, e então abrirá de vez aquela porta velha e gasta e cheia de histórias e recuará seu corpo para que eu mais uma vez entre naquele apartamento abafado e fique um pouco mareado com o cheiro de suor e mágoa e me apóie no encosto de uma cadeira enquanto retomo o prumo, e ele fechará a porta – dessa vez sem ninguém do lado de fora – e ficaremos assim num constrangimento de quem não sabe bem o que faz – tampouco o que fez – e então ele olhará para aquela poltrona de veludo – sem encará-la, claro, só num relance descuidado – e eu – que já o conheço tanto assim – compreenderei que é um convite e me sentarei tenso e meio sem jeito e esperarei que ele diga qualquer coisa como pai, quer tomar uma água? e eu aceitarei automático e então ele irá até a cozinha pegar a água naquele filtro sempre tão embolorado, e eu estarei só na sala, procurando vestígios de um passado que já não encontro e então ele voltará segurando uma xícara com água que estenderá em minha direção entre hostil e piedoso e quando eu pegar a xícara tocarei de leve seus dedos frios que vão se contrair num repente quase derrubando a água, e ele se sentará no sofá que vai ranger a cada movimento que esboçar e então ficará imóvel olhando a parede, como se lá houvesse uma explicação, e eu não saberei começar a dizer nada pois não vim até aqui para dizer.

Umas gotas de suor teimam em me escorrer pela testa, eu, estático ante a campainha e a porta e as expectativas de que vai ser diferente – dessa vez vai ser diferente – e a ressaca secando minha língua e comprimindo as vísceras e já me custa o equilíbrio mas eu preciso vê-lo e impedir que os dias e os anos nos encerrem em nossa distância e nos façam ainda mais velhos e ainda mais sós. Triiiiiiiim. E não é sempre para dizer qualquer coisa muito nova ou resgatar qualquer coisa muito velha que as pessoas se procuram? Então cá estou, esse suor que já brota do pescoço por baixo do cachecol xadrez de encruzilhadas – devia tirá-lo mas não seria uma boa imagem um velho pai tão esquecido segurando um retângulo de lã com franjas, que sequer sabe porque trouxe. Quando você nasceu, meu filho, eu não era assim bruto e assim longe, ouvia seu choro e te acalentava em meus braços – mais fortes que agora – sem dizer nem cantar nada – não é de hoje que as palavras me escapam – só sentindo uma pena pequena e amarga ao te ver tão confiante na minha proteção. Eu esquentava seu leite – a temperatura sempre a olho – e punha na mamadeira que você sugava meio sem vontade enquanto me encarava fundo, atravessando as lentes grossas dos meus óculos e então eu me sentia acolhido e compreendido, mas aí você dormia e eu voltava a andar só pela sala, sempre estranhando aquela luz esverdeada. Escolhia um disco – naquela época estavam já todos tão arranhados – que ouvia baixo e sem muita atenção, esperando que você chorasse de novo.

Triiiiiim. Eu esperava que você aparecesse ao primeiro toque da campainha, como quem estivesse há anos sentado no chão, as costas curvas apoiadas na porta, esperando o dia em que o pai voltaria trazendo um filão de pão para um lanche casual. Triiiim. Mas talvez você ainda esteja dormindo, cansado de ficar um pouco vivo perambulando por aquela luz verde – que decerto você também estranha. Triim. Seu sono não era assim pesado, filho. Talvez você tenha saído um pouco, talvez tenha saído incerto, em busca de um recomeço qualquer, de um pouco de ar fresco, de um verde mais natural. Se você não estiver em casa, filho, eu compreendo, eu o perdôo, eu volto amanhã. Trim. Eu volto amanhã, meu filho, como há tantos meses tenho feito.

Marcha em três passos

julho 7, 2008

“Foi de um de nós que partiu a morte, ou ela já nascia involuntária como a madrugada por trás dos vidros?”

(Caio Fernando Abreu)

1 – O inevitável

Porque eu sei que um dia você vai voltar, pedindo perdão e com os olhos um pouco úmidos, mais ardiloso que arrependido, mais saudoso que apaixonado. E antes de ceder eu vou – claro – resistir um pouco, tentar me agarrar naquele resquício flutuante de razão que às vezes pressinto – embora nunca alcance. E então diremos palavras vazias – de que nada valerão – sobre tudo o que é impossível – que nos é impossível – e concordaremos um com o outro como se de fato nos víssemos, e então essas palavras se farão ainda mais inúteis e nós tentaremos mais uma vez cogitar o possível – como se houvesse – e buscar alternativas – como se o caminho já não estivesse traçado – e nos aproximaremos num abraço – quem sabe num beijo – indeciso de quem vacila ante a morte, como que cortejando o incerto.

2 – O irremediável

E depois nos faremos amáveis e se passarão um ou dois dias, e depois nos faremos cruéis, e se passará uma eternidade. Ai já tão insana quanto insone, eu falarei por horas e horas sobre aquele inventario do irremediável, daquele cara-escritor-gaúcho-que-tanto-me-comove-e-me-inspira-para-qualquer-coisa mas você nada ouvirá pois estará ali apenas cumprindo uma certa penitência do corpo – a alma já andará longe, por caminhos para mim enigmáticos. E aí eu pensarei num corte necessário, e você pensará nesse mesmo corte, mas nada diremos, triunfantemente heróicos por suportar essa tortura.

Sem nenhuma outra idéia, já com os olhos tão inchados, nos sentaremos lado a lado no sofá que é tão pequeno para nossos dois corpos, e assistiremos de novo aquele mesmo filme, aquele da primeira vez que. E no final eu estarei aos prantos e você – como se não tivesse participado dessa escolha/falta de escolha – dirá que eu choro por qualquer cena e não sei pensar no futuro, como daquela vez que você foi me buscar suja, arranhada e soluçante naquela rua sem saída – a qual decerto hoje você evita cruzar. E me lembrará – mais uma outra vez – do quanto achou injusto tudo o que fiz, e eu – sempre tão competitiva, como você mesmo insiste em dizer – não permitirei que você seja o único injustiçado e te lembrarei daquela festa de formatura e de como, aturdido, você teve aquele ímpeto de me jogar do mezanino. E, como sempre, o absurdo desse exemplo – ou o absurdo do exagero da interpretação desse exemplo, alegação que você costuma fazer em sua própria defesa – encerrará o assunto e iremos dormir contrariados, evitando o desconforto de ficar acordados.

3 – O imponderável

E cerca de meia hora depois de apagadas as luzes eu ouvirei o choro e o miado agudo de Fadinha e levantarei para acudi-la, mas estancarei e gritarei alto seu nome quando vir-la toda ferida e sangrenta e humilhada, apontando com a língua sôfrega para aquela fresta na porta da varanda por onde desaparecerá, ligeiro, o enorme rato agressor, que, agora, resigna-se ao lado de fora. Então segurarei Fadinha em meus braços e te chamarei mais e mais alto até que você apareça, sonado, e compreenda a situação e nos leve até um pronto socorro, ainda que meio a contragosto por sair a essa hora da noite. E no caminho – o mais longo e silencioso caminho que já atravessamos – Fadinha sangrará inconsciente sobre as minhas roupas e só morrerá quando, decidida, eu disser pare o carro! e descer descalça e mal agasalhada na pista expressa da marginal Pinheiros, por onde caminharei por todo o tempo necessário, tendo sempre aquele corpo esfriando no meu abraço infinito.

Sem palavras pra dizer que

julho 6, 2008

Esperei até agora que ao menos uma – ao menos uma! – delas viesse até mim dizendo estou aqui, não importam as outras, as outras virão aos poucos, você sabe. Elas aparecerão quando você menos esperar, pense em mim, gaste o tempo que você desperdiça com tantas coisas banais e inúteis pensando e sentindo e ouvindo tudo o que tenho pra te oferecer. Não me recuse dessa vez, eu prometo guiar seus passos até a escuridão de onde sairão tantas outras e desfilarão pela sala e pela cozinha imunda esperando que você estenda sua mão de unhas roídas e as chame com carinho, com a urgência muda de quem já esperou tanto, e as conduza àquele lugar que só você conhece, cheio de cálculos misteriosos e aquela lógica incompreensível…. Não me rejeite, eu estou aqui enquanto as outras te abandonaram, vendo você assim, patética nesse pijama temático, implorando pelo que nem sabe se quer, fingindo que não pensa nelas enquanto mastiga distraída uma coisa qualquer recém saída do microondas, ou assiste um filme sem enxergar as legendas – e eu sei, eu bem sei que você já não enxerga muito longe como antes e por isso toca um pouco aflita todos os objetos à sua volta e vira a cabeça na direção de qualquer ruído, sem sequer se dar conta.

Vamos, admita, é por isso que você quer todas nós aqui, você quer ouvir o que não pode ver, mas não consegue admitir, isso é por demais humilhante pra quem se julga tão ágil e tão completa. Claro que a compensação é justa, fale muito, escreva muito por ver pouco, mas admita, caso contrário, elas nunca mais aparecerão. Me espalhe por sua pele como se não ansiasse pelas outras, seja minha como sou sua, e diga, cegueira, minha cegueira, você é tudo o que tenho.