Marcha em três passos

“Foi de um de nós que partiu a morte, ou ela já nascia involuntária como a madrugada por trás dos vidros?”

(Caio Fernando Abreu)

1 – O inevitável

Porque eu sei que um dia você vai voltar, pedindo perdão e com os olhos um pouco úmidos, mais ardiloso que arrependido, mais saudoso que apaixonado. E antes de ceder eu vou – claro – resistir um pouco, tentar me agarrar naquele resquício flutuante de razão que às vezes pressinto – embora nunca alcance. E então diremos palavras vazias – de que nada valerão – sobre tudo o que é impossível – que nos é impossível – e concordaremos um com o outro como se de fato nos víssemos, e então essas palavras se farão ainda mais inúteis e nós tentaremos mais uma vez cogitar o possível – como se houvesse – e buscar alternativas – como se o caminho já não estivesse traçado – e nos aproximaremos num abraço – quem sabe num beijo – indeciso de quem vacila ante a morte, como que cortejando o incerto.

2 – O irremediável

E depois nos faremos amáveis e se passarão um ou dois dias, e depois nos faremos cruéis, e se passará uma eternidade. Ai já tão insana quanto insone, eu falarei por horas e horas sobre aquele inventario do irremediável, daquele cara-escritor-gaúcho-que-tanto-me-comove-e-me-inspira-para-qualquer-coisa mas você nada ouvirá pois estará ali apenas cumprindo uma certa penitência do corpo – a alma já andará longe, por caminhos para mim enigmáticos. E aí eu pensarei num corte necessário, e você pensará nesse mesmo corte, mas nada diremos, triunfantemente heróicos por suportar essa tortura.

Sem nenhuma outra idéia, já com os olhos tão inchados, nos sentaremos lado a lado no sofá que é tão pequeno para nossos dois corpos, e assistiremos de novo aquele mesmo filme, aquele da primeira vez que. E no final eu estarei aos prantos e você – como se não tivesse participado dessa escolha/falta de escolha – dirá que eu choro por qualquer cena e não sei pensar no futuro, como daquela vez que você foi me buscar suja, arranhada e soluçante naquela rua sem saída – a qual decerto hoje você evita cruzar. E me lembrará – mais uma outra vez – do quanto achou injusto tudo o que fiz, e eu – sempre tão competitiva, como você mesmo insiste em dizer – não permitirei que você seja o único injustiçado e te lembrarei daquela festa de formatura e de como, aturdido, você teve aquele ímpeto de me jogar do mezanino. E, como sempre, o absurdo desse exemplo – ou o absurdo do exagero da interpretação desse exemplo, alegação que você costuma fazer em sua própria defesa – encerrará o assunto e iremos dormir contrariados, evitando o desconforto de ficar acordados.

3 – O imponderável

E cerca de meia hora depois de apagadas as luzes eu ouvirei o choro e o miado agudo de Fadinha e levantarei para acudi-la, mas estancarei e gritarei alto seu nome quando vir-la toda ferida e sangrenta e humilhada, apontando com a língua sôfrega para aquela fresta na porta da varanda por onde desaparecerá, ligeiro, o enorme rato agressor, que, agora, resigna-se ao lado de fora. Então segurarei Fadinha em meus braços e te chamarei mais e mais alto até que você apareça, sonado, e compreenda a situação e nos leve até um pronto socorro, ainda que meio a contragosto por sair a essa hora da noite. E no caminho – o mais longo e silencioso caminho que já atravessamos – Fadinha sangrará inconsciente sobre as minhas roupas e só morrerá quando, decidida, eu disser pare o carro! e descer descalça e mal agasalhada na pista expressa da marginal Pinheiros, por onde caminharei por todo o tempo necessário, tendo sempre aquele corpo esfriando no meu abraço infinito.

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