Apt. 132, Bloco B

“Encarou-o tenso, colocando no olhar o desafio: eu te vejo mais fundo do que você me vê, porque eu te invento nesse olhar, porque você se torna o meu invento, porque depois de olhar muito dentro eu prescindo da imagem e o meu olhar repleto se basta, como se eu fosse cego, mas tivesse guardado todas as imagens (…)”

(Caio Fernando Abreu – A chave e a porta)

Respiro fundo uma, duas, três vezes. O indicador direito aproxima-se da campainha e recua, temeroso. Ele decerto vai abrir a porta com aquele descaso de quem se recusa a verificar o olho mágico, paralisar por um instante ao me reconhecer, disfarçar – não muito bem – o espanto, se certificar da expressão séria e firme, calcular a voz grave que dirá o que é que você faz aqui? enquanto já lentamente fecha a porta que acabou de abrir, esperando um gesto qualquer meu que o impeça de nos separar mais uma vez por uma porta velha e gasta e cheia de histórias – das nossas histórias – mas eu, vacilante, atrasarei o gesto, então ele reabrirá a porta e me olhará interrogando minhas roupas e minha barba por fazer e eu não terei palavras para explicar minhas roupas nem minha barba por fazer nem tudo aquilo que aconteceu e então ficaremos assim, parados frente a frente, eu pedindo clemência e ele tentando negar sem conseguir, e então abrirá de vez aquela porta velha e gasta e cheia de histórias e recuará seu corpo para que eu mais uma vez entre naquele apartamento abafado e fique um pouco mareado com o cheiro de suor e mágoa e me apóie no encosto de uma cadeira enquanto retomo o prumo, e ele fechará a porta – dessa vez sem ninguém do lado de fora – e ficaremos assim num constrangimento de quem não sabe bem o que faz – tampouco o que fez – e então ele olhará para aquela poltrona de veludo – sem encará-la, claro, só num relance descuidado – e eu – que já o conheço tanto assim – compreenderei que é um convite e me sentarei tenso e meio sem jeito e esperarei que ele diga qualquer coisa como pai, quer tomar uma água? e eu aceitarei automático e então ele irá até a cozinha pegar a água naquele filtro sempre tão embolorado, e eu estarei só na sala, procurando vestígios de um passado que já não encontro e então ele voltará segurando uma xícara com água que estenderá em minha direção entre hostil e piedoso e quando eu pegar a xícara tocarei de leve seus dedos frios que vão se contrair num repente quase derrubando a água, e ele se sentará no sofá que vai ranger a cada movimento que esboçar e então ficará imóvel olhando a parede, como se lá houvesse uma explicação, e eu não saberei começar a dizer nada pois não vim até aqui para dizer.

Umas gotas de suor teimam em me escorrer pela testa, eu, estático ante a campainha e a porta e as expectativas de que vai ser diferente – dessa vez vai ser diferente – e a ressaca secando minha língua e comprimindo as vísceras e já me custa o equilíbrio mas eu preciso vê-lo e impedir que os dias e os anos nos encerrem em nossa distância e nos façam ainda mais velhos e ainda mais sós. Triiiiiiiim. E não é sempre para dizer qualquer coisa muito nova ou resgatar qualquer coisa muito velha que as pessoas se procuram? Então cá estou, esse suor que já brota do pescoço por baixo do cachecol xadrez de encruzilhadas – devia tirá-lo mas não seria uma boa imagem um velho pai tão esquecido segurando um retângulo de lã com franjas, que sequer sabe porque trouxe. Quando você nasceu, meu filho, eu não era assim bruto e assim longe, ouvia seu choro e te acalentava em meus braços – mais fortes que agora – sem dizer nem cantar nada – não é de hoje que as palavras me escapam – só sentindo uma pena pequena e amarga ao te ver tão confiante na minha proteção. Eu esquentava seu leite – a temperatura sempre a olho – e punha na mamadeira que você sugava meio sem vontade enquanto me encarava fundo, atravessando as lentes grossas dos meus óculos e então eu me sentia acolhido e compreendido, mas aí você dormia e eu voltava a andar só pela sala, sempre estranhando aquela luz esverdeada. Escolhia um disco – naquela época estavam já todos tão arranhados – que ouvia baixo e sem muita atenção, esperando que você chorasse de novo.

Triiiiiim. Eu esperava que você aparecesse ao primeiro toque da campainha, como quem estivesse há anos sentado no chão, as costas curvas apoiadas na porta, esperando o dia em que o pai voltaria trazendo um filão de pão para um lanche casual. Triiiim. Mas talvez você ainda esteja dormindo, cansado de ficar um pouco vivo perambulando por aquela luz verde – que decerto você também estranha. Triim. Seu sono não era assim pesado, filho. Talvez você tenha saído um pouco, talvez tenha saído incerto, em busca de um recomeço qualquer, de um pouco de ar fresco, de um verde mais natural. Se você não estiver em casa, filho, eu compreendo, eu o perdôo, eu volto amanhã. Trim. Eu volto amanhã, meu filho, como há tantos meses tenho feito.

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