Archive for agosto \26\UTC 2008

agosto 26, 2008

Como de costume acontece, o tempo se adiantou aos meus passos e perdi a hora (o relógio eu perdera anos antes) sem estar sequer na metade do caminho. Quarenta por cento, por facilidade de referência – estimados pela proximidade do sobradinho alaranjado de onde ouço sempre um disco já um tanto fora de rotação (decerto empenado pelo calor da improvável tonalidade das paredes), cantando você que já não diz pra mim as coisas que eu preciso ouvir, e me arrepio num pressentimento vago que só se esvai ao me entreter com um citröen arredio ou com as gargalhadas adolescentes vindas de uma garagem pouco mais à frente (marco dos cinquenta por cento). Mas quarenta era muito pra ser revertido naquele bafo de inverno seco, então segui andando como quem já tem novo rumo. Mas não tinha, que rumo teria uma atrasada aguda a caminhar num concreto irregular que lhe exige atenção?  E tampouco era-me de grande valia a possibilidade de alcançar essa reposta – já parecia supérflua qualquer coisa que não me deixar nessa inércia de passos preciosistas.

Então continuei a caminhada improvisada à procura de um fim pra essa história – poderia surgir de qualquer parte, claro. De cima, inclusive. Mas não veio, deixou-me num desamparo conformado gastando energias a esmo pelas ruas da lapa. Duas ou três cenas me pareceram notáveis, mas prefiro economizá-las para momentos mais oportunos. Vi aquele pôr do sol sem horizonte tão conhecido pelos cosmopolitas, seguido do anoitecer inquieto que me sugeria a (meia) volta necessária.

Voltei – trajeto decidido e silencioso do qual  não tenho muito a dizer.

agosto 20, 2008

“Una cosa es una historia larga, y otra, una historia alargada”

Gabriel García Marquez

orelhas vermelhas

agosto 16, 2008

Posando para a inconveniência de um fotógrafo mais fotógrafo por circunstância que por vocação, tentei discreta suprimir o amarelo do sorriso. Uma das fotos seria selecionada – sei lá por quais critérios – para exemplificar o rosto da autora numa orelha que eu quis discreta embora vermelha, mas a editora, meses depois, faria num azul profundo e previsível, padronizando os lançamentos de julho. Tentei ainda objetar à armação dior que a assistente não sei do quê já apoiava em meu nariz, ao blush que disfarçava minha palidez tão sincera, à postura que nem décadas de treino e correções conseguiriam deixar tão exemplar. Tudo em vão, nem demorei a notar a fajuta simulação de compreensão que a equipe encenava aos arrogantes autores – só porque escreve(ra)m, decerto se justificando assim por não trabalhar,  permitem-se opinar na labuta alheia – e me calei na recordação vaga da fajuta simulação de compreensão que eu mesma tempos antes encenei frente aos editores revisores corretores, resignando-me por fim a assinar um livro que já não era o meu.

Quando se foram os flash e as lentes, apressados por se ocupar dentro de quinze minutos de um talento mais lucrativo, suspirei ingênua acreditando que o pior já passara. Recompensei-me pelo aborrecimento permitindo-me contrariar alguns dogmas médicos: caminhei experimentando ainda a nova postura até a máquina de café gratuito no primeiro andar, peguei um, acendi um cigarro, peguei outro e só me abstive do terceiro constrangida pelo olhar contabilizante da recepcionista. Revigorada pelo ritual transgressor – e naquela idade já eram necessárias tantas privações – rumei ao terceiro andar onde deveria ainda esbanjar mais um pouco da simpatia que nunca me coube falando sobre minha vida e obra ao encarregado da contra-capa.

O encarregado pela contra-capa (EPCc), com quem até então meu contato se restringira a dois ou três emails agendando essa entrevista, como ele insistia em chamar, era um tipo geração marxista 2020, não obstante o rolex legítimo e uns outros itens que na época me chamaram a atenção – tanto pelo mau gosto quanto pelas marcas -, de expressões ensaiadas e gestos plagiados. Se apresentou recitando um nome composto e mais quatro sobrenomes, o que concluiu disponibilizando-me também um apelido, enquanto estendia a mão concedendo-me um aperto frouxo e desgostoso. Explicou-me que deveria embasar sua resenha no que sua sensibilidade pudesse captar durante a entrevista e que, para isso, precisaria contar com minha total honestidade e coragem para despir minhas emoções diante de um desconhecido. Consenti que começássemos num vacilante balançar vertical da cabeça.

– idade?

– quarenta e oito.

(EPCc anota)

– nasceu onde?

– são paulo.

(EPCc anota)

– profissão?

– escritora.

– profissão?

– bom, eu já fui professora e economista mas depois cursei letras e atualmen

– quiceprefere?

– arquiteta

(EPCc anota)

– trabalha aonde?

– não trabalho com arquitetura

(EPCc rasura)

– filhos?

– não – menti.

– casada?

– sim – respondi já sem muita certeza.

(EPCc anota)

– hobby?

– escrever vale?

– fala otro

– golfe

(EPCc anota desatento à ironia)

– fala uma coisa relevante da sua juventude

– relevante pra mim ou pra você?

– (irritado) fala uma coisa que te fascinou

– você

(EPCc dessa vez percebe a ironia)

– (mais irritado) o que é o livro pra você?

– criação materializada

(EPCc anota)

(Desconfio que tenha escrito outra coisa)

Mais umas perguntas assim delicadas e nos despedimos sem pesar. Voltei para casa a pé, envergonhada com a possibilidade de um taxista adivinhar o que fazia eu ali na editora. Mais uns tempos e saía a primeira – e última – edição do meu livro. Medíocre em vendas, contraditório em críticas, sequer pude sentir a tal realização que tanto comentam. Não presenteei ninguém com os exemplares que chegaram pelo correio numa caixa elegante – nunca fui original em dedicatórias – nem escrevi mais nada.

agosto 13, 2008

De uma capital qualquer, com os planos falidos e a pele queimada,  peguei um ônibus para são paulo. Um tanto por tradição, outro por reserva, reivindiquei o assento da janelinha. Ao meu lado, demorei a notar, perdida que estava na costumeira contemplação cega da plataforma de embarque, o cheiro de café amargo que parecia exalar dos poros um tanto suados da gorda senhora que então já invadia involuntária a metade do estofado que me era destinada. Assim, coloquei com cuidado a mochila sob meus pés – a lona, sempre vítima, decerto compreenderia a situação, sem rancores – e apertei-me solícita contra a lateral do veículo que, a essa altura, já acelerava ultrapassando os mais prudentes.

Pouco tempo passado e, como se previa, anoiteceu. Do mp3 do mato-grossense à minha frente – e não, na contra-mão do passatempo de meu bom pai, não me presto à arte de geografizar feições, foi de forma banal que fiquei sabendo de onde vinha e porque ia e quanto ficaria o tal passageiro do mp3, nos intermináveis minutos durante os quais seu monólogo com um suposto telefone celular embalou minha insônia – mas voltando, de um dos tais aparatos tecnológicos do rapaz do mato grosso ((do sul?) teria eu perdido essa parte da informação ou estaria já me rendendo à obsessão de inventar personagens? ) saía vibrante uma batida meio fora de compasso, ressonando na lataria castigada pelo tempo. Olhei detidamente os outros viajantes e constatei, já sentindo um inútil alívio, que não era eu a única incomodada com aquela desfiguração de barulho. Só minha espaçosa vizinha cochilava: a respiração ruidosa e entrecortada por vezes me preocupava. Duas mulheres comentaram em alta voz, naquele conhecido tom de alfinetada que só as jovens senhoras atingem, a falta  de tato do goiano, duplamente distraídas: nem ouviram a tal conversa ao telefone nem adivinharam os fones de ouvido. Mais para o fundo, perto daquilo que com alguma ironia se define por banheiro,  uns quatro ou cinco homens já se entreolhavam num código de machos, elegendo o que deveria se por em ação. A apuração dos votos foi aparentemente harmoniosa – quem sabe até em unanimidade – e logo se aventurou pelo corredor uma versão luso-brasileira do stallone, que, sem muita sutileza, tocou o ombro direito do estorvo-passageiro que, por sua vez, desligou de imediato o aparelho, enrolou o fio dos fones e guardou tudo no bolso, prescindindo de palavras.

A partir dai a viagem prosseguiu tranqüila, sem nada suficientemente notório do que eu pudesse me lembrar agora para prolongar ainda mais essa história ou, quem sabe, até dar-lhe um rumo. Creio que a respeitabilidade dos músculos do tal salvador é que tenha conquistado aquele silêncio quase irreal que se seguiu. Uns adormeceram, outros se entregaram passivos às suas imaginações. Eu fiz de cada um pouco, aos ciclos.

São paulo, cinco horas da manhã, o ônibus paralisou na plataforma reservada. O sol já se insinuava por entre restos de escuridão, mas tenho a complacência de te poupar de maiores demoras paisagistas. Resgatei a mochila resignada sob o banco do mato-grossense (do sul?) e preparei-me para o desembarque, como se essa idéia fosse qualquer coisa de inédita desde que entrara no ônibus. A tal senhora contígua ainda hesitava entre a lucidez e o sonho, exalando agora um aroma de café mais forte e mais quente que antes. Pedi licença numa voz suave, constrangida por forçá-la à escolha inevitável. Ela então se levantou sonada, me dando passagem enquanto recobrava o equilíbrio perdido em horas de espera. Pela primeira vez olhei-a nos olhos: estremeci. Era Pilar Ternera, velha de guerra, me acenando com a cabeça um não plácido e obtuso, que ainda hoje não compreendo.

enquanto isso, em outros jogos…

agosto 8, 2008

Mesmo primando pela precisão dos movimentos – de peito ou costas, o que for – conservo o coração fragilizado dos estáticos e os pulmões miúdos dos aflitos. Assim, desobrigo-me de qualquer referência a hábitos mais salutares que o vício que você lê aqui: insisto no meu caça-palavras cotidiano. E só. Sem definição ou afogamento, simples empuxo sustentando o silêncio, almodóvar colorido no mute.

agosto 7, 2008

Só acendi a lareira com aquela esperança trêmula dos que buscam calor, não premeditei nada do que então já se esgueirava, sabe-se lá da onde – do acaso, da insanidade que me cabe. Mas aí parei – de escrever, claro. Que pouco adequado esse começo eco. Mas não tinha outro ou, melhor, tinha muitos, todos so(m)bras. Então deixei-me assim, às voltas com o incontornável, em pacíficos verbos de ligação, vendo a chuva molhar o que eu não quis proteger. Deitei-me e fingi cansaço, num velho ritual de quem se aproveita da insônia – mas ela, precisa, não cai em armadilhas. Adormeci nomeando as rachaduras na pintura do teto, nem tive tempo de lhes atribuir um passado – restou-lhes apenas um futuro: esperar que eu despertasse como sempre, pouco situada, olhasse pra elas com escasso interesse e logo me ocupasse de alguma outra coisa.

agosto 4, 2008

“O que me interessa são pessoas que tenham uma espessura de vida. Interessa-me pouco o romance filosofante, esses livros imóveis onde as personagens são todas cérebro e não tem vida, nem sangue, nem esperma.”

António Lobo Antunes

presente do futuro

agosto 3, 2008

Talvez um dia eu xeroque umas poesias que escrevi meio entorpecida entediada contrariada num sábado à noite, sozinha em casa, escritas num formato despojado de artista incompreendido pela crueldade burguesa e que vive de rimas esperando ser despejado do seu apê no centro. Aí vou até a augusta num domingo fim de tarde e fico alugando os excêntricos passantes com minha arte, até que um tipo canalha de meia idade se proponha a mecenas anônimo circunstancial, e me ofereça algo pela obra, que eu vou supervalorizar pedindo um bilhete de metrô, mas ele vai pechinchar e vou acabar deixando por um de ônibus mesmo, que escolha? Ai ele vai me convidar pra uma cerveja, mas eu, tão perspicaz, vou ficar desconfiada de que ele não tá ligando muito pra obra-prima recém adquirida, ai vou ficar ofendida e dizer qualquer coisa inóspita, possivelmente até permeada por termos de baixíssimo calão, e me afastar dele entre orgulhosa e humilhada, imaginando o que é que ele vai fazer com aqueles papéis a hora que, por acaso, tateá-los em seu bolso traseiro. E então vou ficar flanando por aquela atmosfera sac(r)almente alternativa e pensando que alternativas não foram feitas pra mim, e vou lembrar de um cara nessa mesma situação de quem, uns anos atrás, num boteco não muito respeitável, comprei um desses famigerados produtos que vendo agora, e quando cheguei em casa e achei que já que tinha comprado tinha no mínimo que ler, no máximo que ler,  me deparei com uma enfadonha seqüência de sonetos dedicados a um cavalo, única companhia/inspiração do pobre autor, que devia comer milho e apreciar a intensidade daquelas palavras. É isso mesmo, não vou sequer me dar ao trabalho de remediar a ambigüidade, sei lá qual dos dois que come milho, pouco me importa.

Ai, tá, já chega, vou escrever qualquer outra coisa, decerto digitada num teclado microsoft, num apê com o aluguel sempre em dia, pensando que dinheiro nenhum pagaria meus textos, que meu talento (!?) é tipo um alimento pra minha alma, só um pouco mais rarefeito em matéria de matéria que uma porção de fritas encharcadas.

Tá bom, eu paro!

Alice estrangeira

agosto 2, 2008

Andava sem trilhos nem trilhas pela estrada do incontável. Topava por vezes com mitologias coloridas que me ignoravam, arrogantes. Sentia no estômago um cravar de agulhas sem linhas perfurando fragmentos de angústia acinzentada, todos sujos de bile inútil. Pisava em adjetivos gosmentos, pegajosos, que aderiam aos meus pés, subiam pelos tornozelos e não mais me deixavam. Imobilizada, via se fechar a porta substantiva sem poder alcançá-la. E assim, revestida pela densidade resistente dos adjetivos paralisantes, puxei forte o último bocado de ar que me foi possível. Expirei – derradeiramente, claro – finalizando o curto circuito das rimas abjetas.

Tampouco tinha verbo para morrer ou sair correndo dali – para outro lugar qualquer, qualquer. Sequer pude existir ou deixar de existir, gritar ou ver a terra pesada vindo de cima e caindo mais e mais e mais.