Alice estrangeira

Andava sem trilhos nem trilhas pela estrada do incontável. Topava por vezes com mitologias coloridas que me ignoravam, arrogantes. Sentia no estômago um cravar de agulhas sem linhas perfurando fragmentos de angústia acinzentada, todos sujos de bile inútil. Pisava em adjetivos gosmentos, pegajosos, que aderiam aos meus pés, subiam pelos tornozelos e não mais me deixavam. Imobilizada, via se fechar a porta substantiva sem poder alcançá-la. E assim, revestida pela densidade resistente dos adjetivos paralisantes, puxei forte o último bocado de ar que me foi possível. Expirei – derradeiramente, claro – finalizando o curto circuito das rimas abjetas.

Tampouco tinha verbo para morrer ou sair correndo dali – para outro lugar qualquer, qualquer. Sequer pude existir ou deixar de existir, gritar ou ver a terra pesada vindo de cima e caindo mais e mais e mais.

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Uma resposta to “Alice estrangeira”

  1. unknown Says:

    continuo adorando o que você escreve, apesar de saber que vc nao deve colocar nem 1/3 … ( “Jurei que não ia postar….”

    saudades,

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