presente do futuro

Talvez um dia eu xeroque umas poesias que escrevi meio entorpecida entediada contrariada num sábado à noite, sozinha em casa, escritas num formato despojado de artista incompreendido pela crueldade burguesa e que vive de rimas esperando ser despejado do seu apê no centro. Aí vou até a augusta num domingo fim de tarde e fico alugando os excêntricos passantes com minha arte, até que um tipo canalha de meia idade se proponha a mecenas anônimo circunstancial, e me ofereça algo pela obra, que eu vou supervalorizar pedindo um bilhete de metrô, mas ele vai pechinchar e vou acabar deixando por um de ônibus mesmo, que escolha? Ai ele vai me convidar pra uma cerveja, mas eu, tão perspicaz, vou ficar desconfiada de que ele não tá ligando muito pra obra-prima recém adquirida, ai vou ficar ofendida e dizer qualquer coisa inóspita, possivelmente até permeada por termos de baixíssimo calão, e me afastar dele entre orgulhosa e humilhada, imaginando o que é que ele vai fazer com aqueles papéis a hora que, por acaso, tateá-los em seu bolso traseiro. E então vou ficar flanando por aquela atmosfera sac(r)almente alternativa e pensando que alternativas não foram feitas pra mim, e vou lembrar de um cara nessa mesma situação de quem, uns anos atrás, num boteco não muito respeitável, comprei um desses famigerados produtos que vendo agora, e quando cheguei em casa e achei que já que tinha comprado tinha no mínimo que ler, no máximo que ler,  me deparei com uma enfadonha seqüência de sonetos dedicados a um cavalo, única companhia/inspiração do pobre autor, que devia comer milho e apreciar a intensidade daquelas palavras. É isso mesmo, não vou sequer me dar ao trabalho de remediar a ambigüidade, sei lá qual dos dois que come milho, pouco me importa.

Ai, tá, já chega, vou escrever qualquer outra coisa, decerto digitada num teclado microsoft, num apê com o aluguel sempre em dia, pensando que dinheiro nenhum pagaria meus textos, que meu talento (!?) é tipo um alimento pra minha alma, só um pouco mais rarefeito em matéria de matéria que uma porção de fritas encharcadas.

Tá bom, eu paro!

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