De uma capital qualquer, com os planos falidos e a pele queimada,  peguei um ônibus para são paulo. Um tanto por tradição, outro por reserva, reivindiquei o assento da janelinha. Ao meu lado, demorei a notar, perdida que estava na costumeira contemplação cega da plataforma de embarque, o cheiro de café amargo que parecia exalar dos poros um tanto suados da gorda senhora que então já invadia involuntária a metade do estofado que me era destinada. Assim, coloquei com cuidado a mochila sob meus pés – a lona, sempre vítima, decerto compreenderia a situação, sem rancores – e apertei-me solícita contra a lateral do veículo que, a essa altura, já acelerava ultrapassando os mais prudentes.

Pouco tempo passado e, como se previa, anoiteceu. Do mp3 do mato-grossense à minha frente – e não, na contra-mão do passatempo de meu bom pai, não me presto à arte de geografizar feições, foi de forma banal que fiquei sabendo de onde vinha e porque ia e quanto ficaria o tal passageiro do mp3, nos intermináveis minutos durante os quais seu monólogo com um suposto telefone celular embalou minha insônia – mas voltando, de um dos tais aparatos tecnológicos do rapaz do mato grosso ((do sul?) teria eu perdido essa parte da informação ou estaria já me rendendo à obsessão de inventar personagens? ) saía vibrante uma batida meio fora de compasso, ressonando na lataria castigada pelo tempo. Olhei detidamente os outros viajantes e constatei, já sentindo um inútil alívio, que não era eu a única incomodada com aquela desfiguração de barulho. Só minha espaçosa vizinha cochilava: a respiração ruidosa e entrecortada por vezes me preocupava. Duas mulheres comentaram em alta voz, naquele conhecido tom de alfinetada que só as jovens senhoras atingem, a falta  de tato do goiano, duplamente distraídas: nem ouviram a tal conversa ao telefone nem adivinharam os fones de ouvido. Mais para o fundo, perto daquilo que com alguma ironia se define por banheiro,  uns quatro ou cinco homens já se entreolhavam num código de machos, elegendo o que deveria se por em ação. A apuração dos votos foi aparentemente harmoniosa – quem sabe até em unanimidade – e logo se aventurou pelo corredor uma versão luso-brasileira do stallone, que, sem muita sutileza, tocou o ombro direito do estorvo-passageiro que, por sua vez, desligou de imediato o aparelho, enrolou o fio dos fones e guardou tudo no bolso, prescindindo de palavras.

A partir dai a viagem prosseguiu tranqüila, sem nada suficientemente notório do que eu pudesse me lembrar agora para prolongar ainda mais essa história ou, quem sabe, até dar-lhe um rumo. Creio que a respeitabilidade dos músculos do tal salvador é que tenha conquistado aquele silêncio quase irreal que se seguiu. Uns adormeceram, outros se entregaram passivos às suas imaginações. Eu fiz de cada um pouco, aos ciclos.

São paulo, cinco horas da manhã, o ônibus paralisou na plataforma reservada. O sol já se insinuava por entre restos de escuridão, mas tenho a complacência de te poupar de maiores demoras paisagistas. Resgatei a mochila resignada sob o banco do mato-grossense (do sul?) e preparei-me para o desembarque, como se essa idéia fosse qualquer coisa de inédita desde que entrara no ônibus. A tal senhora contígua ainda hesitava entre a lucidez e o sonho, exalando agora um aroma de café mais forte e mais quente que antes. Pedi licença numa voz suave, constrangida por forçá-la à escolha inevitável. Ela então se levantou sonada, me dando passagem enquanto recobrava o equilíbrio perdido em horas de espera. Pela primeira vez olhei-a nos olhos: estremeci. Era Pilar Ternera, velha de guerra, me acenando com a cabeça um não plácido e obtuso, que ainda hoje não compreendo.

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Uma resposta to “”

  1. marquito Says:

    é por isto que o(s) mundo agradece os relatórios quarto-de-boca.
    (e talvez também Pilar Ternera, com seu não imprescindível e premonitório).

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