orelhas vermelhas

Posando para a inconveniência de um fotógrafo mais fotógrafo por circunstância que por vocação, tentei discreta suprimir o amarelo do sorriso. Uma das fotos seria selecionada – sei lá por quais critérios – para exemplificar o rosto da autora numa orelha que eu quis discreta embora vermelha, mas a editora, meses depois, faria num azul profundo e previsível, padronizando os lançamentos de julho. Tentei ainda objetar à armação dior que a assistente não sei do quê já apoiava em meu nariz, ao blush que disfarçava minha palidez tão sincera, à postura que nem décadas de treino e correções conseguiriam deixar tão exemplar. Tudo em vão, nem demorei a notar a fajuta simulação de compreensão que a equipe encenava aos arrogantes autores – só porque escreve(ra)m, decerto se justificando assim por não trabalhar,  permitem-se opinar na labuta alheia – e me calei na recordação vaga da fajuta simulação de compreensão que eu mesma tempos antes encenei frente aos editores revisores corretores, resignando-me por fim a assinar um livro que já não era o meu.

Quando se foram os flash e as lentes, apressados por se ocupar dentro de quinze minutos de um talento mais lucrativo, suspirei ingênua acreditando que o pior já passara. Recompensei-me pelo aborrecimento permitindo-me contrariar alguns dogmas médicos: caminhei experimentando ainda a nova postura até a máquina de café gratuito no primeiro andar, peguei um, acendi um cigarro, peguei outro e só me abstive do terceiro constrangida pelo olhar contabilizante da recepcionista. Revigorada pelo ritual transgressor – e naquela idade já eram necessárias tantas privações – rumei ao terceiro andar onde deveria ainda esbanjar mais um pouco da simpatia que nunca me coube falando sobre minha vida e obra ao encarregado da contra-capa.

O encarregado pela contra-capa (EPCc), com quem até então meu contato se restringira a dois ou três emails agendando essa entrevista, como ele insistia em chamar, era um tipo geração marxista 2020, não obstante o rolex legítimo e uns outros itens que na época me chamaram a atenção – tanto pelo mau gosto quanto pelas marcas -, de expressões ensaiadas e gestos plagiados. Se apresentou recitando um nome composto e mais quatro sobrenomes, o que concluiu disponibilizando-me também um apelido, enquanto estendia a mão concedendo-me um aperto frouxo e desgostoso. Explicou-me que deveria embasar sua resenha no que sua sensibilidade pudesse captar durante a entrevista e que, para isso, precisaria contar com minha total honestidade e coragem para despir minhas emoções diante de um desconhecido. Consenti que começássemos num vacilante balançar vertical da cabeça.

– idade?

– quarenta e oito.

(EPCc anota)

– nasceu onde?

– são paulo.

(EPCc anota)

– profissão?

– escritora.

– profissão?

– bom, eu já fui professora e economista mas depois cursei letras e atualmen

– quiceprefere?

– arquiteta

(EPCc anota)

– trabalha aonde?

– não trabalho com arquitetura

(EPCc rasura)

– filhos?

– não – menti.

– casada?

– sim – respondi já sem muita certeza.

(EPCc anota)

– hobby?

– escrever vale?

– fala otro

– golfe

(EPCc anota desatento à ironia)

– fala uma coisa relevante da sua juventude

– relevante pra mim ou pra você?

– (irritado) fala uma coisa que te fascinou

– você

(EPCc dessa vez percebe a ironia)

– (mais irritado) o que é o livro pra você?

– criação materializada

(EPCc anota)

(Desconfio que tenha escrito outra coisa)

Mais umas perguntas assim delicadas e nos despedimos sem pesar. Voltei para casa a pé, envergonhada com a possibilidade de um taxista adivinhar o que fazia eu ali na editora. Mais uns tempos e saía a primeira – e última – edição do meu livro. Medíocre em vendas, contraditório em críticas, sequer pude sentir a tal realização que tanto comentam. Não presenteei ninguém com os exemplares que chegaram pelo correio numa caixa elegante – nunca fui original em dedicatórias – nem escrevi mais nada.

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Uma resposta to “orelhas vermelhas”

  1. tangaman Says:

    “Temerário Observador Nonsense de Textos Obnubilados” (TONTO) comenta com “Temível Inquisidora de Aforismos”: realmente, escrever orelhas é digno de olvido.

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