Archive for setembro \18\UTC 2008

setembro 18, 2008

” Claro, a posição ideal para ler não se consegue encontrar. Antigamente lia-se de pé, diante de uma estante. Tinha-se o hábito de estar parado de pé. Descansava-se assim quando se estava cansado de andar a cavalo. A cavalo nunca ninguém se lembrou de ler; e todavia agora a idéia de ler sobre o arção, o livro pousado nas crinas do cavalo, talvez preso às orelhas com um adereço especial, parece-te atraente. Com os pés no estribo devia-se estar muito comodamente a ler, ter os pés soerguidos é a primeira condição para gozar a leitura.”

(Italo Calvino, Se numa noite de inverno um viajante)

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setembro 16, 2008

enquanto contemplo vaga todo o por fazer acumulando seco nas quinas lotadas eu não.

e só.

setembro 14, 2008

Na poeira calendário do meu plano de madeira fiz um traço, depois outro. Mais alguns e lá estava a sequência de letras disformes – ou talvez fossem números – escamoteando o sentido que eu jamais viria a desvendar. Horizontais cedidas – cedendo – ao oblíquo do estilo em movimento anunciado pelo transferidor que já trago de memória – adjunto ao compasso agudo que manipulo sem corpo sem cálculo sem fluido.

Improvisei novas perspectivas, requintei meu espetáculo pobre de formas nesse substrato discutível de imaginação oscilante sonolenta – o fôlego raro, que eu então forçava de leve como quem se esquece da tarde dedicado em reanimar uma bateria já morta, já posta num retiro de matéria sem função.

Sem ação.

Lembro-me de onde guardei uma flanela.

Nova urgência

substantivo apressado dispensando contextos.

Resta agora

resta um: laranja.

setembro 9, 2008

Sem palavras calo cúmplice da precisão de vozes outras, ditos risos inventados marcados na lentidão do meu compasso poço gosto de… damasco! Língua acima, meras rimas, reverto óleo da meia tela esquerda – flanco conciso de escamas voláteis.

Atravessada a praça, desço correndo a rua inevitável de sobrados em reforma. De longe já vejo um pai, pai, meu pai?, à espera do velho que ouve a campainha e levanta sem pressa como quem se acostumou a receber visitas amáveis e as grades já sucumbem em mãos embrutecidas que recobrem sua extensão com telhas verticais aluminosas quando de roupão e chinelos o homem abre sua portinhola reservada e não vejo o pai desaparecer do outro lado –  meu imperativo é correr e nada mais não olhe pro asfalto (mas eram parelelepípedos) poeirento não adivinhe a explicação que inexiste por enquanto, siga seu anfitrião enquanto descarrego essa aflição de tempo curto e espaço longo, enquanto corro corro corro até chegar ao último sobrado de escombros inefáveis e constatar que

ela (quem é ela?) estará dormindo no segundo degrau, o preto chanel contrastando a pele clara enquanto ele (?) fala ao telefone

baixo, bem baixo

pra não acordá-la.

setembro 3, 2008


Aconteceu de novo.

O quê?

Não sei. Um estranhamento calmo de fumaça alinhada. Miopia alheia aos olhos embaçando a paisagem ambígua, defeito que já não era meu. Corpo íntegro pesando no chão. Abri a porta e acendi o abajur, as paredes todas molhadas, coitadas. O corredor vazio ecoando passos. Laços. Frio de alumínio moderno.

E ai?

Despertei.