open

sentia a madeira incômoda nas costas esmagando o travesseiro demasiado fino enquanto ouvia sua respiração imprimindo ritmo àquela espera ingênua e lúcida, não, não, imaginava sua respiração imprimindo o passo,  afinal, seu ar é sempre o que não se pode ouvir quando a luz é pouca – como era, de fato, a penumbra de nossa estratégia predileta – até que se anunciou o momento. Erguemo-nos atentos, quatro orelhas à moda dos pavilhões caninos, prontos a ouvir o barulho que decerto transpassaria impunemente o alumínio das venezianas, dispondo-se a matéria prima desse nosso lúdico exercício. E assim foi. Som que não era um ou sequer harmônico: um alarme, chamados, um nome dobrando a esquina, buscando alguém que já se ia num andar apressado (magoado ou enfurecido, sabe-se lá, são sempre tão particulares os motivos de quem vai), trânsito na garoa, as buzinas que não mais assustam, acostumados que somos. Cumprindo as regras tacitamente acordadas pegamos cada qual um pedaço de papel dentre as inúmeras filipetas reservadas especialmente para a ocasião, os lápis apontados – pelo menos durante o escrever das primeiras linhas; afinal, lá pela quarta ou quinta iam se arredondando numa espessura crescente, roubando precisão aos nossos garranchos, imperfeitos por si mesmos, mas era outra parte do combinado não nos ocuparmos de apontadores laminosos, aceitávamos placidamente o desgaste natural das pontas até onde fosse possível e depois… depois… não estava combinado, talvez fosse esse o término do jogo, a hora de ocuparmo-nos com algum outro improviso, ou talvez a gente tateasse distraidamente a mesinha de cabeceira em busca de um auxílio, ou poderíamos começar a falar em vez de escrever até que só houvesse bocas e ouvidos e um dos pedaços de papel escorregasse por nossos dedos, pelos meus, digamos, e se perdesse entre um cobertor enrolado aos seus pés ou planasse silencioso e invisível até aterrizar debaixo da cama, onde dificilmente seria localizado em menos de um ou dois meses, ao menos que também outra coisa se perdesse, um brinco, meio par de sapatos, a preguiça de limpar o quarto numa tarde cinzenta.

“Só o nada me atravessava na languidez das horas – diz apontando os dedos tortos de cigana eslava refugiada num trópico qualquer, sua arte inútil na latitude em que previsões não bastam.”

“O copista corria atrás do ladrão (que já há meses cumpria suas horas diárias de silêncio corpo estático – auto-imposto, decisão tardia na rabeira da constatação da rebeldia dos músculos: a perna direita sempre sapateante sob as mais diversas mesas, os dedos, lábios, sempre em busca de um novo cigarro mesmo, os joelhos, cotovelos, enfim, toda a sorte desafinada de movimentos tão  inevitáveis quanto incapazes de deslocamentos mínimos, patinantes no repetitivo da rotina morna, já chega, bradou recomposto fazendo vacilar o zumbido da cabeça, companheiro assíduo, já chega, anunciou recobrando seu centrinho particular de possível controle, já chega, repetiu pela última vez, aguardando que também o indicador esquerdo tomasse pra si a ordem recém-estabelecida.

Mas logo lhe ocorreu – ou se fez notar – que decidir não bastava, baixou a cabeça numa derrota provisória maquinando a decisão seguinte. )

Alcançou-o”

Por la noche.

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