Archive for novembro \04\UTC 2008

miércoles (sem muito de especial, só outra cena urbana cheia de monóxidos)

novembro 4, 2008

Não – disse finalmente no último instante, no transcurso do derradeiro segundo, quando cessam os juízos e só resta a voz, quando as previsões saem de cena à sua moda altiva, abrindo caminho à sorte que não se pode prever ou escolher, quando a música silencia e um zoom de câmera impiedosa diz xeque (mate) anunciando que o tempo acabou, vinte e cinco caracteres para o ponto final, no máximo (condescendência sádica de quem conhece a suficiência de três ou quatro). Não – disse numa mescla de fonemas encadeados num sentido que só se pode compreender depois, num sopro de idioma que ainda não se reconhece como código possível, como tom melancólico ou austero de melodia sem instrumento. Não – repetiu amparando-se na superfície do balcão, situando-se no vão do próprio eco enquanto as mãos tateavam uma distração qualquer, um escape barato de plástico ou papel recicláveis à espera da lixeirinha colorida, da mão doutrinada que os guiaria até lá defendendo triunfantemente os elementos oprimidos pelos hábitos de lixo e isopor poluentes, de pilhas sem destino a se acumularem em vapores tóxicos de calor e fendas. Não – recordou começando a sequenciar os fatos (as falas), a dar corpo ao que até então era não mais que insólito e discreto em seus intervalos delimitados de começo e fim, de frações infinitas a atrasar ou adiantar os ponteiros sempre em movimento (circular, sempre circular – de réptil quixote num niilismo esperançoso a perseguir a si próprio em sentido anti-horário – subtraindo as horas ao encontro do passado). Não – repetiu silenciosamente adivinhando o timbre que teria chegado aos contíguos (mas não havia contíguo algum, distribuíam-se todos em mesas redondas distantes de onde emergia o coro desafinado de argumentos e risadas dos adaptados, no balcão estava só, estatisticamente irrelevante, a observar os modos preparados dos que buscam par ou glória).

Chega – variou cansando do monotema recorrente, levantando-se na ressurreição anunciada de quem situa as bordas e se vai sem hesitação, tomando num só gole a última sobra de vodca aguada pela impaciência dos três cubos de gelo que pedira pouco antes, naquele mesmo instante lento em que fitou o telão a banda o show e se cansou de ser platéia sempre e sentiu que algo se distorcia num prenúncio de atividade e se orgulhou desse algo ainda vago embora visivelmente transbordante de ímpetos inéditos de liberdade de vilão e disse não. Pagou desprezando o miúdo do troco pela primeira vez, com a certeza tardia de poder ser ver ter ler mais, mais, em algum outro lugar, provavelmente, mas já não importavam os cenários desenhados nesse concreto estável (mas não haveria nunca outro possível, sabia), levantou-se. Sentiu a tontura tão pertinente ao momento de álcool e arroubos reservados ao particular do substrato dos órgãos, vacilou no equilíbrio e na vontade apoiando-se na banqueta que então já se ia rumo ao chão em sua companhia de pouco tônus, o grudento do piso fixando os cabelos longos, a curiosidade risonha e sua perspicácia a tecer hipóteses um tanto óbvias, acertadas até, embora nenhum comentário se fizesse próprio a essa queda sem som ou cor, a banqueta ainda quente e sarcástica com ares de quem já previa a sucessão de não e chega e queda e a aceleração calculável dessa atração de massas assimétricas em forma e textura que lhe chamava pra perto, mais perto.

Anúncios