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dezembro 4, 2008

Hoje eu abandono meus óculos e me entrego a um tato incerto de teclado não decorado, de risco de não salvar, de gravar num lugar impróprio os caracteres da cegueira incompleta, da pontuação enigmática ao sonho que se basta (e falha), à consciência que já não acesso. Só um teclado preto inflamado por brasas que derrubo sem notar, letras dispersas sem padrão: eu imagino o nada e me deixo levar, temporária. Eu pressinto as rugas, livro o ralo dos cabelos, leio obediente os rótulos formatados, respiro a capacidade de meus pulmões enegrecidos enquanto o martelo da reforma vizinha marca o passo alheio ao qual me rendo já sem entusiasmo, escrevo pra não ler o lento decifrar do sofrimento, eu me envergonho e me calo enquanto compactuo. Eu me envergonho e me condeno a um novo cigarro resignado, me condeno a sobreviver por um tempo indefinido.

O 1 esguio já não difere de outro numeral, ainda assim miro o relógio e me apresso um pouco, me alimento do coágulo de gelatinas vermelhamente translúcidas, e saio buscando a sorte da nova aprovação, ignorando as placas seguras do caminho, fecho (por fora) a porta aprisionando acordes respeitáveis na eterna reverberação do oco da decoração impensada, das formas desconjuntadas, das lacunas desejadas nas caixas de cartas nunca escritas, uns arcanos pacientes. Me aventuro pela desordem a despeito das precauções das mães (trancafiaram-me na mudez da lucidez dos surdos de onde só fugi pra poder voltar depois, me impuseram uns modos de debutante alegre e o aceno vertical da condescendência – que nunca me caíram muito bem), eu olho pra baixo e não grito, suo a aflição dos escravos preguiçosos ao listrar o papel em branco como quem garante a volta espalhando migalhas, controlo fósforos incendiários que não causam danos, me perco e ainda assim duvido, meus sapatos vermelhos não têm intenção, eu trago no bolso a peça desgarrada ao acaso (no random impossível), no momento em que me deixo avaliar pela falta de escrúpulos dos mestres eleitos (por quem?), por minhas digitais alienadas num número grande traço xis (por quem?) devolvo os méritos que furto em bibliografias anunciadas – o frio hipoglicêmico da modéstia sequer existe, na verve de piadista incrédula me faço sócia da fruição burra a desprezar décadas idas quando o sinal fica verde e o de trás buzina com a autoridade dos que têm o que fazer.

Adentro ironicamente o tórax numa estampa de flores róseas, regozijando o trunfo ingênuo do cinismo, fotografo minhas próprias costas num espelho de falácias (a miríade de pixels orgulhosos denunciando o sangue a escorrer pelas coxas incautas), abro as mãos num espalmar obsceno de renúncia inevitável: meu pulso inconstante prescinde de exemplos (talvez os sedimentos se precipitem ao fundo num só tempo, numa sincronia ensaiada, e não haja mais onde pisar). Rumino um capim sem raiz e me liberto apaziguada, encho o tanque de carpas horrendas e me vou sem adeus (esquecendo o gato solto por ai…). (Meu reflexo agora é uma mancha densa na tela de 17 polegadas – mas como estimar diagonais? – que eu tento dissolver e não consigo, eu me cubro com um manto antigo, tecido pelo vazio dos ponteiros, tentando abafar meus poros e não dá certo, eu falo baixo, falo alto e a diferença é pequena – eu sequer filtro meu próprio ar, sorvo bocados indiscriminados à espera da continuidade mórbida). Mas não leve a sério esses devaneios tortos, a tentação do espetáculo – ou o espetáculo da tentação – me tomam por instrumento frouxo, ai eu abandono os óculos e me subordino a leis fictícias inventadas sem qualquer propósito que as justifique, eu acompanho sem censura um balanço que nasce pungente e espera que uma farta dose de realidade o assassine em nome do razoável, preservando as sobras viáveis num constante recomeço de recomeço – que eu evito sem querer, me debatendo pela comodidade de construir qualquer coisa de incompreensível – e assim isenta de julgamentos – desviando do pragmatismo exigido, do pleonasmo, do sal, da fome e das filas ubíquas, da existência de um Sancho que se sustenta vivo sem o apelo ornamental da dúvida partilhada. Ah, mas certas coisas não se prestam às palavras de improviso, e eu tento mesmo assim, traço o plano da cruzada fracassada de antemão (elas se protegem nos limites da ambigüidade, no sarcasmo viciado, no excesso de barulho) para ter alguma certeza medíocre à vista.

Eu evoco deuses mortos no correr das linhas, jogo a âncora para descobrir que não há terra, assumo a primeira pessoa sem alternativa, eu quero chorar mas economizo prudentemente a água ameaçada, líquido petrificando na falta de fluidez, no crescente da viscosidade, ecolalia das paredes nuas. Eu aplico na pele um ponto-falso tirânico, um encontro forçado de bombordo e estibordo, cicatriz precoce que não advem, resistindo aos desígnios antinaturais da minha insensatez: a automutilação é irreversível, não há agulha que possa ser alcançada, não há vitrola pra essa rotação instável de giros em degraus horizontais. Já não sei que cor tem a mesa sob a toalha, o colchão sob os lençóis, castos se resguardando dos toques e olhares sob o véu da maquiagem colorida, acertada ao largo do suor e das lágrimas, do algodão benevolente espalhado uniformemente pela superfície, assentado pelos meses que se repetem ordenados.

Ouço um guincho bárbaro do lado de fora. Eu me exporto pra lá, transponho as paredes solícitas transgredindo o sermão newtoniano apregoado a colegiais insossos, eu estou do lado de fora, eu sou o lado de lá, eu sou o guincho bárbaro chamando quem se reconhece, a morte é uma puta, diz o Lobo, eu aspiro a abolição dos muros, o despejo das osgas malditas, a desapropriação das taturanas sonolentas, eu sou o muro, concreta e rígida aguardando o choque proposital, o brusco abandono da embreagem e uns segundos confusos e fim, as exéquias incomodando a rotina dos próximos, lamentações e saudades, pesadelos eventuais e fim, o muro está intacto e eu me desincorporo dali, eu persisto numa cidade qualquer, num plano B mal esboçado.

A placidez me excede em múltiplas dimensões, eu verto gritos mal modulados, traída pelas cordas vocais arredias, eu sôo estranhamente aos meus ouvidos, entôo um experimento de última hora, abandono meus óculos e ouço a rouquidão da minha própria voz.