Archive for fevereiro \20\UTC 2009

fevereiro 20, 2009

Depois do almoço, sempre depois do almoço, (café?), quando convêm que cada coisa tenha seu próprio nome, quando se vai o rigor e se pode crer que cada coisa tem seu próprio nome, (café?), quando o corpo se distrai numa satisfação provisória e abandona a voz ao contato oco da falta de substância, de ritmo, depois do almoço, quando o adiável e o trivial se confundem numa mescla temerária que se recolhe a um canto distante embora visível (depois do almoço tudo já foi visto), a curiosidade se esvai na repetição dos padrões e suas variações, uma fenda em círculo engole a vontade, (há algo errado?), a frouxa ação que se pode conquistar é no máximo mecânica, (é um arremedo de vida se mexendo, parodiando atos ensinados, veja, é um rato mal modelado querendo existir). Depois do almoço, enquanto o filme finge acontecer, enquanto as falas me chegam graves e lentas perturbando essa submersão em água sem gás (no simulacro desértico das poças, no aquário, na tosse dos afogados), eu farejo a viscosidade do nada e isso é tudo, essa morte em cores que escancara o mesmo, o nada, (que horas são?), a morte diária dos vivos, a morte tortura do nada dos nem tão vivos, (é um corpo vivo a despeito do nada), o saber brutal de que o dia continua, (temos mais quinze minutos), a inspiração comprida de saber que não acabou, (vamos indo?), a demora sem notícia do consolo do escurecer. Depois do almoço ainda é dia, (tá na hora), depois do almoço é tarde, é cedo pra desejar a noite, (você não dorme nunca?), cedo pra ver o que se olha, cedo pro sal das lágrimas ou do suor, cedíssimo.

fevereiro 17, 2009

(Mas) Eu que sempre falei em arte, em estratégia, em lentes, vivo agora esse estranhamento sem alívio dos movimentos lentos, das costas pesando numa renúncia que não é minha, que só endosso por não ver alternativa, que acolho porque me invade sem se dissolver, que vem acompanhada dessa melancolia que vai, sorrateira, se infiltrando pelos ossos sem que eu possa lhe identificar a origem ou os vínculos, sem me dar sequer uma chance de aceitá-la numa negociação de acordos antecipados às ilusões, (você vem hoje?), de vontade de não ter vontades, de calar o vão que então é tudo, (você joga?), de secar a saliva inútil e engolir os nós da azia do inconformismo sem maiúsculas, sem agudos, com o rec(h)eio que nem chega a ser medo na representação desse uivo tão pouco humano de feroz que é, de grave e denso que me estremece sem deixar cair, negando o alento do chão, do débito de mais (menos) hum peso uniformizado na mensuração dos loucos, das compras, dos encontros normais, dos filmes que não assustam, das ligações que já se espera, das despedidas ou da canastra (real) de domingo, (sua vez), passo, (não pode passar), passo, (não sabe jogar), eu não sei jogar, não sei jogar, venho aqui aos domingos porque é o que devo fazer, tem de ser feito, saio de casa quando o telefone toca (você vem hoje?) e eu compreendo que a opção não é minha, a resposta foi dada por uma voz irreconhecível que responde desse lado da linha, (    ), saio de casa mas não sei jogar, pras ruas há mapas, então eu saio de casa sem saber jogar, lá pelas três da tarde, logo depois que o telefone toca (você vem hoje?) e uma voz desse lado responde sem saber ou sem lembrar ou se importar que eu não sei jogar nem disfarçar (não sabe jogar), que o desfecho já é previsto (não sabe jogar), muito embora não fosse assim uns tantos domingos atrás, quando eu ainda não tinha sido tomada e nem podia imaginar esse estranhamento sem alívio dos movimentos lentos
(não sabe jogar)

fevereiro 13, 2009

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fevereiro 10, 2009

Abri a porta pensando em entrar pensando em sair em não voltar. Abri a porta na indecisão que me faz oca e farta, no rompante de um giro horário abri. Ali estava você sentado na mesma poltrona lendo um livro que eu não podia identificar dali, da porta, em pé em frente a porta, na soleira que atravessei em sentido contrário horas antes, um livro de capa preta, um retângulo colorido ao centro, um cheiro conhecido vindo do forno, a poltrona pré aquecida pelo seu corpo que se levantava dando lugar ao meu, um convite, um aceno, o indicador tranqüilo marcando a página interrompida, você tranqüilo sinalizando a poltrona que agora me contem.

Me sentei pensando em cair pensando em fugir em não lutar. Desviava meus olhos pro preto da capa pro colorido do retângulo, era uma janela verde, você suave abrindo um armário lavando taças trazendo um vinho, a capa preta descansando na mesinha de centro, a janela verde de madeira e vidro, você pálido de carne e voz, eu arrependida sentada na poltrona concedida em perdão, a madeira mais frágil que o vidro, mais verde que o vidro, eu adiando as palavras buscando um cigarro na bolsa que segurava ainda como se não estivesse em casa, a capa o retângulo a janela partilhando a mesinha com o par de taças vazias, a garrafa, a rolha, um par de taças cheias, brindemos.

Brindei pensando em quebrar o silêncio, sugerir um motivo, não precisávamos dizer o motivo, o cheiro já identificável te chamava ao forno, eu te chamando pra mim, eu com tanta fome te chamando pra mim, você desligando o forno cuidadoso lendo a embalagem, uns quinze minutos de espera, eu desligando as erupções de palavras que me ensurdecem, te chamando pra perto, mais perto.