Depois do almoço, sempre depois do almoço, (café?), quando convêm que cada coisa tenha seu próprio nome, quando se vai o rigor e se pode crer que cada coisa tem seu próprio nome, (café?), quando o corpo se distrai numa satisfação provisória e abandona a voz ao contato oco da falta de substância, de ritmo, depois do almoço, quando o adiável e o trivial se confundem numa mescla temerária que se recolhe a um canto distante embora visível (depois do almoço tudo já foi visto), a curiosidade se esvai na repetição dos padrões e suas variações, uma fenda em círculo engole a vontade, (há algo errado?), a frouxa ação que se pode conquistar é no máximo mecânica, (é um arremedo de vida se mexendo, parodiando atos ensinados, veja, é um rato mal modelado querendo existir). Depois do almoço, enquanto o filme finge acontecer, enquanto as falas me chegam graves e lentas perturbando essa submersão em água sem gás (no simulacro desértico das poças, no aquário, na tosse dos afogados), eu farejo a viscosidade do nada e isso é tudo, essa morte em cores que escancara o mesmo, o nada, (que horas são?), a morte diária dos vivos, a morte tortura do nada dos nem tão vivos, (é um corpo vivo a despeito do nada), o saber brutal de que o dia continua, (temos mais quinze minutos), a inspiração comprida de saber que não acabou, (vamos indo?), a demora sem notícia do consolo do escurecer. Depois do almoço ainda é dia, (tá na hora), depois do almoço é tarde, é cedo pra desejar a noite, (você não dorme nunca?), cedo pra ver o que se olha, cedo pro sal das lágrimas ou do suor, cedíssimo.

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