Archive for março \25\UTC 2009

março 25, 2009

“Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi uma frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: “vim em busca de amor” estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: “responda” ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: “não tenho afeto para dar”, não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.”

(Hoje de madrugada, Raduan Nassar)

março 12, 2009

Então é assim, é isso, é isso que é a solidão, o barulho opaco dum corpo único de encontro ao chão, é isso, os limites do espectro de uma mesma voz, o livro folhado – ou até lido – sem indicações, o alô na linha muda, o pulso constante, é isso, sair e voltar sem nada a ser dito, o corte inexorável, irremediável, o balanço das horas num jogo incompreensível de claro-escuro, um cerrar de portas tão arbitrário quanto definitivo, o eterno retorno ao mesmo lugar.

março 5, 2009

entrei no prédio lembrando do tempo em que você dizia

calma

e eu nem sabia o que significava isso, você dizia

calma

e eu não ouvia nada, eu gritava chorava esmurrava o seu peito até que você segurasse os meus pulsos e parasse de pedir

calma

eu era aflita e achava que não precisava disfarçar, achava que poderia viver assim impunemente, te achava reacionário dizendo

calma

porque eu não tinha

calma

porque eu não fingia ter

calma

porque eu te desejava sem

calma alguma e o seu desejo era um grito,

reflexo da sua imagem, eu era uma cobaia, te desejava numa ânsia de cobaia, eu ouvia a sua voz

pelos corredores pelos sonhos pelos muros, só ensurdecia ao seu

calma

só ensurdecia aos lampejos de prudência que você tentava me fazer sentir educando a minha ira enquanto eu escapava pelos vãos, enquanto eu tinha tudo, menos

(      ).

(antigo, pero no mucho)