E então eu, que ia aos poucos me familiarizando com o inescrutável de seus espasmos, abandonando o vício da taxonomia das emoções alheias, libertava-me do que outrora sondava como se mensagem fosse, e tocava enfim a matéria dos acontecimentos, outorgando ao tato a busca pela verdade que eu perseguia incansável,

mas em troca pedia

sacrifica sua boca ao golpe sem mestre que é o beijo que lhe ofereço

encolhe sua fome a esse lamento amargo que verto sem censura

resigna seu movimento à cela escura que é meu copo sem bordas

dispensa a sordidez dos seus seguidores e vem só ao meu encontro, e vem despido de barulho, vem pobre de pranto que eu desfilo meu arsenal de verbos de ligação

já que não sei o que é ser uma

apita seu arbítrio e ouve minha surdez recrudescida

libera seus soluços se o que resta é nada, que eu te acolho num conjugar de vazios que será, então, meu e seu

bota as cartas sobre os lençóis pra que a artimanha seja de fato nova

suporta meu cansaço na perfeição de seus ombros assimétricos

uiva sua rouquidão na austeridade da cerimônia que será cada manhã ofuscada pela inconveniência da luz

despreza a volição megera que me arrebata

ao me ver

pronta pra sairmos

esquece tudo isso,

elogia-me o vestido, as sandálias, um traço qualquer que te agrade,

e,

a despeito desse sermão oco que eu, sem rumo, sem substância, prego por aí,

afirma seus desejos

sem deixar a mim

qualquer opção.

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3 Respostas to “”

  1. leandro Says:

    lindo, linda!
    feliz pascoa!

  2. celso Says:

    muito bom!!!
    a verdade da carne
    suplanta nossa surdez.

  3. Orfeu B. Says:

    Para além do vestido e das sandálias, que suponho merecerem a dignidade dum elogio, salta à vista a força desse desabafo. São linhas que queimam e inquietam.

    Eu não acredito que haja discursos ocos dentre aqueles que sejam honestos. Servem, na pior das hipóteses, como disciplinadores do pensamento. Para além disso, as palavras são expansivas e ligam-se umas às outras de modo que os discursos nunca são exclusivamente nossos. Não há frases incompletas. À nossa voz juntam-se inevitavelmente outras.

    Obrigado, por este belo texto!

    Com um beijinho fraterno.

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