Archive for maio \31\UTC 2009

maio 31, 2009

“E acontece-me pensar que vivo contigo porque me sinto em paz no teu sótão, engolido pelas coxas separadas que me protegem do sofrimento e do medo. E ao escutar-te, ao sentir a tua impávida, animal respiração tranquila, convenço-me de que durarei, intacto, sem fim, a bordo do teu corpo, respirando o suor da manhã nos teus sovacos barbeados.”

(António Lobo Antunes, Auto dos danados)

maio 9, 2009

“Margens, bravas, vagas”

(Madredeus)

Porque meu corpo hoje, querida, é um furor evanescente que se perde nas dobras cinzentas da memória, se dissolve na ausência de esquinas desse horizonte uniforme, do sol que só vem para depois partir, desaparecendo sob o mar salgado que guia a aridez da minha extensão até as pedras, então eu me reclino um pouco sobre o porta retratos que ainda me assegura os contornos do teu rosto e faço-te as perguntas que não respondes, que não me respondeste nunca, aí me calo constrangido pelo rigor do silêncio que me devolves sem muita ternura, só com a compreensão fria com a qual eu ainda hoje luto para me habituar, preservando as recordações nesse altar que construí para ti, nessa plataforma sacra que protejo do pó e da guerra, querida, impedindo que a opacidade do tempo furte o mínimo grau de brilho dos teus cabelos, que manche tua pele de anúncios de senilidade ou amarele as páginas do Drummond que me deste no aniversário de quarenta e dois, ou três, perdão, querida, as datas têm se confundido na languidez dessa espera, já me fogem os verbos e suas flexões acertadas, os nomes das ruas e das tantas cidades que visitamos, querida, perdão.