“Margens, bravas, vagas”

(Madredeus)

Porque meu corpo hoje, querida, é um furor evanescente que se perde nas dobras cinzentas da memória, se dissolve na ausência de esquinas desse horizonte uniforme, do sol que só vem para depois partir, desaparecendo sob o mar salgado que guia a aridez da minha extensão até as pedras, então eu me reclino um pouco sobre o porta retratos que ainda me assegura os contornos do teu rosto e faço-te as perguntas que não respondes, que não me respondeste nunca, aí me calo constrangido pelo rigor do silêncio que me devolves sem muita ternura, só com a compreensão fria com a qual eu ainda hoje luto para me habituar, preservando as recordações nesse altar que construí para ti, nessa plataforma sacra que protejo do pó e da guerra, querida, impedindo que a opacidade do tempo furte o mínimo grau de brilho dos teus cabelos, que manche tua pele de anúncios de senilidade ou amarele as páginas do Drummond que me deste no aniversário de quarenta e dois, ou três, perdão, querida, as datas têm se confundido na languidez dessa espera, já me fogem os verbos e suas flexões acertadas, os nomes das ruas e das tantas cidades que visitamos, querida, perdão.

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Uma resposta to “”

  1. Junior Says:

    pois é, pra ser sincero é o primeiro livro que leio dele(nem conhecia o autor) mas é incrível mesmo.

    abraço

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