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abril 16, 2010

“Comecei a compreender que não havia nenhum meio de retificar a imagem de minha pessoa, desqualificada por um tribunal supremo dos destinos humanos; compreendi que essa imagem (mesmo sendo pouco semelhante) era infinitamente mais real do que eu mesmo; que ela não era de maneira alguma minha sombra, mas que eu era a sombra de minha imagem; que não era possível acusá-la de não se parecer comigo, mas que eu era o culpado dessa falta de semelhança; e que essa falta de semelhança, enfim, era minha cruz, cruz que eu não poderia confiar a ninguém e que estava condenado a carregar.

(…)

Ah, não, não encontrava em mim a menor garantia de ser melhor que os outros; mas em que é que isso muda minha relação com o próximo? A consciência de minha própria miséria não  me reconcilia em absoluto com a miséria de meus semelhantes. Nada me repugna mais do que ver as pessoas confraternizando porque cada um vê no outro sua própria baixeza. Não  me identifico com essa fraternidade asquerosa.”

(Milan Kundera, A brincadeira)

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