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setembro 18, 2010

Quando você voltar, meu bem, talvez eu não more mais aqui. Quando você chegar em casa, lá pelo cair da noite, não vai me encontrar como de costume – a reclamar nosso jantar improvisado, a lhe sufocar de amores, a topar desajeitada um dedo do pé numa quina qualquer, a propor-lhe um casaco em virtude do frio que eu mesma sinto – não vai me encontrar. Nem sequer um bilhete eu hei deixar, porque esse bilhete não lhe traria novidade alguma, porque esse bilhete jamais seria capaz de explicar o que você jamais seria capaz de compreender. Quando você voltar, meu bem, resignado com a vida que se desenrola a cada dia, orgulhoso e fatigado de mais uma bruta jornada de ganha pão, já editando na mente um ou dois episódios promotores da minha participação na realidade da qual fico à margem, impacientemente em pé na plataforma à espera de uma lufada de ar sinalizando o trem que não virá, a aproveitar odores que ponham em marcha minha imaginação meio enferrujada, meu bem, vai estranhar minha ausência sem se deixar tomar por maiores preocupações. Segundo seus cálculos casuais essa solidão sequer terá tempo de assumir um nome, um corpo, porque eu hei de irromper na sala antes, bem antes disso, a reproduzir a rotina a despeito desse pequeno atraso, a reembolsar-nos essa lacuna pela sutil aceleração dos primeiros movimentos, a recuperar-nos sete minutos elegendo um miojo ao invés de macarrão, a prosseguir minha fala pela porta entreaberta durante o xixi apressado. Porque segundo seus cálculos casuais, meu bem, a imensidão da dor que alego ter nada mais é que um exagero preventivo mal sustentado pela fluidez das lágrimas, melhor pontuado por um soluço ou outro, é o drama ao qual intrinco-me de espírito por uma escolha estética. Quando você voltar, meu bem, corridas as primeiras rápidas horas, tendo ainda por vir a lentidão da primeira madrugada, a assumir ares de cônjuge atento ao que se passa você vai perguntar meu paradeiro num sms ainda seguro, e pouco mais tarde, ainda sem rancor pela demora da resposta, vai ligar para o meu celular enquanto se prepara para um banho ou inicia a leitura das notícias do dia, desligando na voz que anuncia a caixa postal ao se deparar com uma manchete inesperada.

Quando você voltar, meu bem, eu provavelmente estarei um pouco trêmula dirigindo por uma grande avenida por desconhecer atalhos ou o destino, enfrentando os resquícios do tráfego do rush, acompanhada de minha bolsa preferida, a verde, mais uma pequena mala contendo as poucas roupas que me servem hoje em dia, a lembrar-me dos livros que não levo comigo, da mobília que agora é só sua, da despedida da qual nos poupei.

Quando você voltar, meu bem, eu provavelmente estarei hesitando entre a estrada ou um retorno, lamentando não ter comido algo antes de sair, intrigada ao cogitar uma nova interpretação para aquele sonho do oceano que não lhe contei durante o café da manhã. Eu provavelmente estarei hesitando entre uma culpa, mesmo sem saber bem pelo que, e uma vaga vontade de seguir meu caminho para longe de nós. E neste dia, meu bem, estou certa de que algum imprevisto lhe atrasará o suficiente para que eu recobre o que me escapou e já esteja em casa, ainda que um pouco atordoada, quando você voltar.

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