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novembro 17, 2010

(Enquanto) Definhava na lúgubre descida dos decadentes, já não era mais eu. Estava, em verdade, sentada à beira, no chão, chão de acostamento que insiste em inexistir, teimoso na pretensão de se abstrair da concretude do tato, da voz (Onde está você, amor?), imperceptível aos que sobem apressados a firmar o desenho das panturrilhas decididas, a ser e querer do interior dessa vida orgânica que já não me alcança (Seus afagos descolam-me as escamas, percebe?). Tinha mais era um cansaço de velha, uma dor de cadela selvagem, dor de cansaço, arrepio de dor.  Tinha mais era a vontade de pendurar os óculos no decote discreto e deixar de vez de me ocupar da tela dupla inaugurada pelos riscos nas lentes, de tornar-me parte do primeiro e único plano, prescindir da profundidade, que é, ao fim, ideologia carbônica sufocando a honestidade simplória das hemácias (Há força nesses pulsos delgados a despeito de tanta aposta no vermelho, por que é que não vicia suas cartas e chega rico em casa esta noite?), (e entra sem fazer barulho e surpreende-me a pobreza dos pensamentos circulares já pensados antes e antes ainda, assusta o meu silêncio com a sua presença – que é meu desejo) que se põem em marcha sem nem questionar esse circuito fechado, vazando em baixo volume pela fenda que então toma pontos num pronto-socorro onde não há empatia ou iodo à disposição dos feridos, onde as macas entopem a passagem afunilando o tempo da liberdade (É um urro apenas!) dos que não têm um nem outro, dos que perdem o que nunca chegaram a desdenhar, tal um lobo que só teme a morte do rival, fil(h)a de operários famintos, que têm, no entanto, para onde voltar depois de chegada sua vez, registrada sua reivindicação num protocolo estéril de necessidades quiçá legítimas (Me repito mais outra vez, perdoa, não tive opção).

novembro 10, 2010

“Estou a tocar o fundo, o fundo do fundo, e precisava de ti.”

(António Lobo Antunes, Memória de Elefante)