Archive for the ‘Historietas’ Category

agosto 13, 2008

De uma capital qualquer, com os planos falidos e a pele queimada,  peguei um ônibus para são paulo. Um tanto por tradição, outro por reserva, reivindiquei o assento da janelinha. Ao meu lado, demorei a notar, perdida que estava na costumeira contemplação cega da plataforma de embarque, o cheiro de café amargo que parecia exalar dos poros um tanto suados da gorda senhora que então já invadia involuntária a metade do estofado que me era destinada. Assim, coloquei com cuidado a mochila sob meus pés – a lona, sempre vítima, decerto compreenderia a situação, sem rancores – e apertei-me solícita contra a lateral do veículo que, a essa altura, já acelerava ultrapassando os mais prudentes.

Pouco tempo passado e, como se previa, anoiteceu. Do mp3 do mato-grossense à minha frente – e não, na contra-mão do passatempo de meu bom pai, não me presto à arte de geografizar feições, foi de forma banal que fiquei sabendo de onde vinha e porque ia e quanto ficaria o tal passageiro do mp3, nos intermináveis minutos durante os quais seu monólogo com um suposto telefone celular embalou minha insônia – mas voltando, de um dos tais aparatos tecnológicos do rapaz do mato grosso ((do sul?) teria eu perdido essa parte da informação ou estaria já me rendendo à obsessão de inventar personagens? ) saía vibrante uma batida meio fora de compasso, ressonando na lataria castigada pelo tempo. Olhei detidamente os outros viajantes e constatei, já sentindo um inútil alívio, que não era eu a única incomodada com aquela desfiguração de barulho. Só minha espaçosa vizinha cochilava: a respiração ruidosa e entrecortada por vezes me preocupava. Duas mulheres comentaram em alta voz, naquele conhecido tom de alfinetada que só as jovens senhoras atingem, a falta  de tato do goiano, duplamente distraídas: nem ouviram a tal conversa ao telefone nem adivinharam os fones de ouvido. Mais para o fundo, perto daquilo que com alguma ironia se define por banheiro,  uns quatro ou cinco homens já se entreolhavam num código de machos, elegendo o que deveria se por em ação. A apuração dos votos foi aparentemente harmoniosa – quem sabe até em unanimidade – e logo se aventurou pelo corredor uma versão luso-brasileira do stallone, que, sem muita sutileza, tocou o ombro direito do estorvo-passageiro que, por sua vez, desligou de imediato o aparelho, enrolou o fio dos fones e guardou tudo no bolso, prescindindo de palavras.

A partir dai a viagem prosseguiu tranqüila, sem nada suficientemente notório do que eu pudesse me lembrar agora para prolongar ainda mais essa história ou, quem sabe, até dar-lhe um rumo. Creio que a respeitabilidade dos músculos do tal salvador é que tenha conquistado aquele silêncio quase irreal que se seguiu. Uns adormeceram, outros se entregaram passivos às suas imaginações. Eu fiz de cada um pouco, aos ciclos.

São paulo, cinco horas da manhã, o ônibus paralisou na plataforma reservada. O sol já se insinuava por entre restos de escuridão, mas tenho a complacência de te poupar de maiores demoras paisagistas. Resgatei a mochila resignada sob o banco do mato-grossense (do sul?) e preparei-me para o desembarque, como se essa idéia fosse qualquer coisa de inédita desde que entrara no ônibus. A tal senhora contígua ainda hesitava entre a lucidez e o sonho, exalando agora um aroma de café mais forte e mais quente que antes. Pedi licença numa voz suave, constrangida por forçá-la à escolha inevitável. Ela então se levantou sonada, me dando passagem enquanto recobrava o equilíbrio perdido em horas de espera. Pela primeira vez olhei-a nos olhos: estremeci. Era Pilar Ternera, velha de guerra, me acenando com a cabeça um não plácido e obtuso, que ainda hoje não compreendo.

Marcha em três passos

julho 7, 2008

“Foi de um de nós que partiu a morte, ou ela já nascia involuntária como a madrugada por trás dos vidros?”

(Caio Fernando Abreu)

1 – O inevitável

Porque eu sei que um dia você vai voltar, pedindo perdão e com os olhos um pouco úmidos, mais ardiloso que arrependido, mais saudoso que apaixonado. E antes de ceder eu vou – claro – resistir um pouco, tentar me agarrar naquele resquício flutuante de razão que às vezes pressinto – embora nunca alcance. E então diremos palavras vazias – de que nada valerão – sobre tudo o que é impossível – que nos é impossível – e concordaremos um com o outro como se de fato nos víssemos, e então essas palavras se farão ainda mais inúteis e nós tentaremos mais uma vez cogitar o possível – como se houvesse – e buscar alternativas – como se o caminho já não estivesse traçado – e nos aproximaremos num abraço – quem sabe num beijo – indeciso de quem vacila ante a morte, como que cortejando o incerto.

2 – O irremediável

E depois nos faremos amáveis e se passarão um ou dois dias, e depois nos faremos cruéis, e se passará uma eternidade. Ai já tão insana quanto insone, eu falarei por horas e horas sobre aquele inventario do irremediável, daquele cara-escritor-gaúcho-que-tanto-me-comove-e-me-inspira-para-qualquer-coisa mas você nada ouvirá pois estará ali apenas cumprindo uma certa penitência do corpo – a alma já andará longe, por caminhos para mim enigmáticos. E aí eu pensarei num corte necessário, e você pensará nesse mesmo corte, mas nada diremos, triunfantemente heróicos por suportar essa tortura.

Sem nenhuma outra idéia, já com os olhos tão inchados, nos sentaremos lado a lado no sofá que é tão pequeno para nossos dois corpos, e assistiremos de novo aquele mesmo filme, aquele da primeira vez que. E no final eu estarei aos prantos e você – como se não tivesse participado dessa escolha/falta de escolha – dirá que eu choro por qualquer cena e não sei pensar no futuro, como daquela vez que você foi me buscar suja, arranhada e soluçante naquela rua sem saída – a qual decerto hoje você evita cruzar. E me lembrará – mais uma outra vez – do quanto achou injusto tudo o que fiz, e eu – sempre tão competitiva, como você mesmo insiste em dizer – não permitirei que você seja o único injustiçado e te lembrarei daquela festa de formatura e de como, aturdido, você teve aquele ímpeto de me jogar do mezanino. E, como sempre, o absurdo desse exemplo – ou o absurdo do exagero da interpretação desse exemplo, alegação que você costuma fazer em sua própria defesa – encerrará o assunto e iremos dormir contrariados, evitando o desconforto de ficar acordados.

3 – O imponderável

E cerca de meia hora depois de apagadas as luzes eu ouvirei o choro e o miado agudo de Fadinha e levantarei para acudi-la, mas estancarei e gritarei alto seu nome quando vir-la toda ferida e sangrenta e humilhada, apontando com a língua sôfrega para aquela fresta na porta da varanda por onde desaparecerá, ligeiro, o enorme rato agressor, que, agora, resigna-se ao lado de fora. Então segurarei Fadinha em meus braços e te chamarei mais e mais alto até que você apareça, sonado, e compreenda a situação e nos leve até um pronto socorro, ainda que meio a contragosto por sair a essa hora da noite. E no caminho – o mais longo e silencioso caminho que já atravessamos – Fadinha sangrará inconsciente sobre as minhas roupas e só morrerá quando, decidida, eu disser pare o carro! e descer descalça e mal agasalhada na pista expressa da marginal Pinheiros, por onde caminharei por todo o tempo necessário, tendo sempre aquele corpo esfriando no meu abraço infinito.