Archive for the ‘Imargens’ Category

setembro 3, 2008


Aconteceu de novo.

O quê?

Não sei. Um estranhamento calmo de fumaça alinhada. Miopia alheia aos olhos embaçando a paisagem ambígua, defeito que já não era meu. Corpo íntegro pesando no chão. Abri a porta e acendi o abajur, as paredes todas molhadas, coitadas. O corredor vazio ecoando passos. Laços. Frio de alumínio moderno.

E ai?

Despertei.

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presente do futuro

agosto 3, 2008

Talvez um dia eu xeroque umas poesias que escrevi meio entorpecida entediada contrariada num sábado à noite, sozinha em casa, escritas num formato despojado de artista incompreendido pela crueldade burguesa e que vive de rimas esperando ser despejado do seu apê no centro. Aí vou até a augusta num domingo fim de tarde e fico alugando os excêntricos passantes com minha arte, até que um tipo canalha de meia idade se proponha a mecenas anônimo circunstancial, e me ofereça algo pela obra, que eu vou supervalorizar pedindo um bilhete de metrô, mas ele vai pechinchar e vou acabar deixando por um de ônibus mesmo, que escolha? Ai ele vai me convidar pra uma cerveja, mas eu, tão perspicaz, vou ficar desconfiada de que ele não tá ligando muito pra obra-prima recém adquirida, ai vou ficar ofendida e dizer qualquer coisa inóspita, possivelmente até permeada por termos de baixíssimo calão, e me afastar dele entre orgulhosa e humilhada, imaginando o que é que ele vai fazer com aqueles papéis a hora que, por acaso, tateá-los em seu bolso traseiro. E então vou ficar flanando por aquela atmosfera sac(r)almente alternativa e pensando que alternativas não foram feitas pra mim, e vou lembrar de um cara nessa mesma situação de quem, uns anos atrás, num boteco não muito respeitável, comprei um desses famigerados produtos que vendo agora, e quando cheguei em casa e achei que já que tinha comprado tinha no mínimo que ler, no máximo que ler,  me deparei com uma enfadonha seqüência de sonetos dedicados a um cavalo, única companhia/inspiração do pobre autor, que devia comer milho e apreciar a intensidade daquelas palavras. É isso mesmo, não vou sequer me dar ao trabalho de remediar a ambigüidade, sei lá qual dos dois que come milho, pouco me importa.

Ai, tá, já chega, vou escrever qualquer outra coisa, decerto digitada num teclado microsoft, num apê com o aluguel sempre em dia, pensando que dinheiro nenhum pagaria meus textos, que meu talento (!?) é tipo um alimento pra minha alma, só um pouco mais rarefeito em matéria de matéria que uma porção de fritas encharcadas.

Tá bom, eu paro!

Apt. 132, Bloco B

julho 11, 2008

“Encarou-o tenso, colocando no olhar o desafio: eu te vejo mais fundo do que você me vê, porque eu te invento nesse olhar, porque você se torna o meu invento, porque depois de olhar muito dentro eu prescindo da imagem e o meu olhar repleto se basta, como se eu fosse cego, mas tivesse guardado todas as imagens (…)”

(Caio Fernando Abreu – A chave e a porta)

Respiro fundo uma, duas, três vezes. O indicador direito aproxima-se da campainha e recua, temeroso. Ele decerto vai abrir a porta com aquele descaso de quem se recusa a verificar o olho mágico, paralisar por um instante ao me reconhecer, disfarçar – não muito bem – o espanto, se certificar da expressão séria e firme, calcular a voz grave que dirá o que é que você faz aqui? enquanto já lentamente fecha a porta que acabou de abrir, esperando um gesto qualquer meu que o impeça de nos separar mais uma vez por uma porta velha e gasta e cheia de histórias – das nossas histórias – mas eu, vacilante, atrasarei o gesto, então ele reabrirá a porta e me olhará interrogando minhas roupas e minha barba por fazer e eu não terei palavras para explicar minhas roupas nem minha barba por fazer nem tudo aquilo que aconteceu e então ficaremos assim, parados frente a frente, eu pedindo clemência e ele tentando negar sem conseguir, e então abrirá de vez aquela porta velha e gasta e cheia de histórias e recuará seu corpo para que eu mais uma vez entre naquele apartamento abafado e fique um pouco mareado com o cheiro de suor e mágoa e me apóie no encosto de uma cadeira enquanto retomo o prumo, e ele fechará a porta – dessa vez sem ninguém do lado de fora – e ficaremos assim num constrangimento de quem não sabe bem o que faz – tampouco o que fez – e então ele olhará para aquela poltrona de veludo – sem encará-la, claro, só num relance descuidado – e eu – que já o conheço tanto assim – compreenderei que é um convite e me sentarei tenso e meio sem jeito e esperarei que ele diga qualquer coisa como pai, quer tomar uma água? e eu aceitarei automático e então ele irá até a cozinha pegar a água naquele filtro sempre tão embolorado, e eu estarei só na sala, procurando vestígios de um passado que já não encontro e então ele voltará segurando uma xícara com água que estenderá em minha direção entre hostil e piedoso e quando eu pegar a xícara tocarei de leve seus dedos frios que vão se contrair num repente quase derrubando a água, e ele se sentará no sofá que vai ranger a cada movimento que esboçar e então ficará imóvel olhando a parede, como se lá houvesse uma explicação, e eu não saberei começar a dizer nada pois não vim até aqui para dizer.

Umas gotas de suor teimam em me escorrer pela testa, eu, estático ante a campainha e a porta e as expectativas de que vai ser diferente – dessa vez vai ser diferente – e a ressaca secando minha língua e comprimindo as vísceras e já me custa o equilíbrio mas eu preciso vê-lo e impedir que os dias e os anos nos encerrem em nossa distância e nos façam ainda mais velhos e ainda mais sós. Triiiiiiiim. E não é sempre para dizer qualquer coisa muito nova ou resgatar qualquer coisa muito velha que as pessoas se procuram? Então cá estou, esse suor que já brota do pescoço por baixo do cachecol xadrez de encruzilhadas – devia tirá-lo mas não seria uma boa imagem um velho pai tão esquecido segurando um retângulo de lã com franjas, que sequer sabe porque trouxe. Quando você nasceu, meu filho, eu não era assim bruto e assim longe, ouvia seu choro e te acalentava em meus braços – mais fortes que agora – sem dizer nem cantar nada – não é de hoje que as palavras me escapam – só sentindo uma pena pequena e amarga ao te ver tão confiante na minha proteção. Eu esquentava seu leite – a temperatura sempre a olho – e punha na mamadeira que você sugava meio sem vontade enquanto me encarava fundo, atravessando as lentes grossas dos meus óculos e então eu me sentia acolhido e compreendido, mas aí você dormia e eu voltava a andar só pela sala, sempre estranhando aquela luz esverdeada. Escolhia um disco – naquela época estavam já todos tão arranhados – que ouvia baixo e sem muita atenção, esperando que você chorasse de novo.

Triiiiiim. Eu esperava que você aparecesse ao primeiro toque da campainha, como quem estivesse há anos sentado no chão, as costas curvas apoiadas na porta, esperando o dia em que o pai voltaria trazendo um filão de pão para um lanche casual. Triiiim. Mas talvez você ainda esteja dormindo, cansado de ficar um pouco vivo perambulando por aquela luz verde – que decerto você também estranha. Triim. Seu sono não era assim pesado, filho. Talvez você tenha saído um pouco, talvez tenha saído incerto, em busca de um recomeço qualquer, de um pouco de ar fresco, de um verde mais natural. Se você não estiver em casa, filho, eu compreendo, eu o perdôo, eu volto amanhã. Trim. Eu volto amanhã, meu filho, como há tantos meses tenho feito.

Não Mais

março 3, 2008

Esperava ansioso pelo toque do interfone, o porteiro dizendo está aqui, deseja lhe falar. Sim, sim, eu também quero falar, quero te ouvir – mais uma vez aquela voz tão doce tão rouca dizendo absurdos que não compreendo. Lábios sem batom soprando um tal muro dum tal francês.

Ao passar pela porta, olhará ao redor: nada mudou. Com familiaridade e desconcerto me guiará com seu olhar até as malas que ainda estarão do lado de fora. Então eu as trarei para dentro – te trarei para dentro – oferecerei qualquer coisa que você irá rejeitar, meio sem jeito, pedindo só um pouquinho de vodka, se tiver.

De minha poltrona de burguês comungado, ingenuamente perguntarei como foi a viagem. Você dará aquele sorriso triste de quem ensaiou uma resposta impossível e, esvaziando o copo, dando a impressão de querer mais um pouquinho, se tiver, divagará sobre a ciclicidade do inexorável. Sempre atenta aos meus olhos, ficará levemente ruborizada e selecionará com mais didática cada palavra que pronunciar sempre que lhe ocorrer algo de nosso passado, ou mesmo o contexto desse nosso encontro – último, creio eu.

Minutos depois, visivelmente ansiosa e fingindo esquecer meus hábitos, perguntará se me importo se fumar aqui. Disfarçando a ansiedade e fingindo esquecer meus hábitos, direi que sim, claro, pode fumar, e na primeira oportunidade abrirei uma das janelas, casualmente, abafado aqui.

E amassando a segunda ou terceira bituca, decidirá que já basta desse discurso abstrato e perguntará sobre a minha rotina – da qual já conhece cada pormenor – e de velhos amigos comuns – dos quais se esforçará para lembrar os nomes e os rostos.

Assim conversaremos por algumas horas, até eu sugerir que a gente saia e coma alguma coisa, o que você irá aceitar, pois discretamente fitou todos os lugares onde poderia estar esquecida outra garrafa de vodka, se houvesse.

Chegaremos à decisão de deixar as malas aqui mesmo e iremos ao bar onde, anos atrás, começamos a envelhecer. Eu, sadicamente, passarei todo o jantar adiando o inevitável, até que você decida que chegou o momento.

Sutilmente trêmula, você sacará da bolsa um envelope amassado e meio sujo. Nele, a decisão definitiva, a que faz daquele nostálgico nós dois, provisório. Eu, já acostumado com a idéia, assinarei os papéis como se também sonhasse esse fim.

Depois, cansados, retornaremos ao meu – ao nosso – apartamento. Eu notarei – sem comentar – sua pressa em reaver as malas, e você recusará o convite para ficar quantos dias precisar, chamará um táxi. Nos despediremos cordialmente – com afeto, até – e você partirá daqui pela última vez. Eu, com muitas mágoas e um certo alívio, tomarei sozinho uma cerveja – já sem imaginar o interfone tocando e o porteiro dizendo está aqui, deseja lhe falar.