Archive for the ‘Luz & Ratos’ Category

fevereiro 20, 2014

Ainda hoje eu desconheço as retas, mas já improviso atalhos. Porque me sinto pouca se me alegro com suas migalhas indecisas. Só sigo aprendendo a.

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Daqui pra frente a história era outra

junho 28, 2013

Pq vc é o maior dos excessos que me atravessa. Pq vc foi o maior destes excessos, quase lúgubre, isso sim. Sem vc eu não soube estar em mim, inspirava em repetições cadentes sem expirar jamais, fiz do meu próprio corpo a clausura de algo incompreensível, como um desejo ruidoso de fim da tarde, saudades de casa. Em festa de criança, balão prestes a estourar.

O de praxe entre nós: seus excessos me esgotam. Eu, vou-me embora.

de volta, ainda que tarde

fevereiro 4, 2013

era um rasgo ainda amargo que ficara na ponta dos dedos, um jeito rude de não querer ou não conseguir responder nada. Um aceno, no máximo. Outra omissão na história do omisso. Era um voto de compensar na próxima vez. Na próxima vez que.

agosto 17, 2011

Enquanto isso eu luto, meu bem, pois é justamente o que se há de fazer. Enquanto isso, no correr das horas apressadas, resgato as forças – que decerto existem, insisto! – e me distraio vez ou outra para que o foco não se dilua pelo vazio das periferias, para que a nitidez não me escape repentinamente ou bem aos poucos, de forma que eu nem sequer me dê conta.

setembro 18, 2010

Quando você voltar, meu bem, talvez eu não more mais aqui. Quando você chegar em casa, lá pelo cair da noite, não vai me encontrar como de costume – a reclamar nosso jantar improvisado, a lhe sufocar de amores, a topar desajeitada um dedo do pé numa quina qualquer, a propor-lhe um casaco em virtude do frio que eu mesma sinto – não vai me encontrar. Nem sequer um bilhete eu hei deixar, porque esse bilhete não lhe traria novidade alguma, porque esse bilhete jamais seria capaz de explicar o que você jamais seria capaz de compreender. Quando você voltar, meu bem, resignado com a vida que se desenrola a cada dia, orgulhoso e fatigado de mais uma bruta jornada de ganha pão, já editando na mente um ou dois episódios promotores da minha participação na realidade da qual fico à margem, impacientemente em pé na plataforma à espera de uma lufada de ar sinalizando o trem que não virá, a aproveitar odores que ponham em marcha minha imaginação meio enferrujada, meu bem, vai estranhar minha ausência sem se deixar tomar por maiores preocupações. Segundo seus cálculos casuais essa solidão sequer terá tempo de assumir um nome, um corpo, porque eu hei de irromper na sala antes, bem antes disso, a reproduzir a rotina a despeito desse pequeno atraso, a reembolsar-nos essa lacuna pela sutil aceleração dos primeiros movimentos, a recuperar-nos sete minutos elegendo um miojo ao invés de macarrão, a prosseguir minha fala pela porta entreaberta durante o xixi apressado. Porque segundo seus cálculos casuais, meu bem, a imensidão da dor que alego ter nada mais é que um exagero preventivo mal sustentado pela fluidez das lágrimas, melhor pontuado por um soluço ou outro, é o drama ao qual intrinco-me de espírito por uma escolha estética. Quando você voltar, meu bem, corridas as primeiras rápidas horas, tendo ainda por vir a lentidão da primeira madrugada, a assumir ares de cônjuge atento ao que se passa você vai perguntar meu paradeiro num sms ainda seguro, e pouco mais tarde, ainda sem rancor pela demora da resposta, vai ligar para o meu celular enquanto se prepara para um banho ou inicia a leitura das notícias do dia, desligando na voz que anuncia a caixa postal ao se deparar com uma manchete inesperada.

Quando você voltar, meu bem, eu provavelmente estarei um pouco trêmula dirigindo por uma grande avenida por desconhecer atalhos ou o destino, enfrentando os resquícios do tráfego do rush, acompanhada de minha bolsa preferida, a verde, mais uma pequena mala contendo as poucas roupas que me servem hoje em dia, a lembrar-me dos livros que não levo comigo, da mobília que agora é só sua, da despedida da qual nos poupei.

Quando você voltar, meu bem, eu provavelmente estarei hesitando entre a estrada ou um retorno, lamentando não ter comido algo antes de sair, intrigada ao cogitar uma nova interpretação para aquele sonho do oceano que não lhe contei durante o café da manhã. Eu provavelmente estarei hesitando entre uma culpa, mesmo sem saber bem pelo que, e uma vaga vontade de seguir meu caminho para longe de nós. E neste dia, meu bem, estou certa de que algum imprevisto lhe atrasará o suficiente para que eu recobre o que me escapou e já esteja em casa, ainda que um pouco atordoada, quando você voltar.

setembro 16, 2009

Sugiro que fique com os quadros, o baú menor, tiro de lá minhas coisas num instante, metade das conservas de Avaré que tanto te deliciam (ainda me impressionam seus suspiros quentes daquele deleite sem culpa), e os livros, os livros se misturaram tanto, (menos que nós mesmos), já não sabemos de cada um a quem pertence ou quem de fato o leu, não, deixa este que ainda não terminei, é, sim, terminar terminei mas queria ainda reler uns capítulos, deixa que te entrego logo, não esqueço. Sugiro que nos revezemos em nossos bares prediletos, pode ficar com as sextas, ou os sábados, se preferir, no Tião, eu fico com a sinuca e depois a gente troca se for o caso, você pode ficar com o quilo que eu detesto aquela comida, vou ver se aprendo a cozinhar alguma coisa, aliás, você podia me ajudar nisso, me dar umas aulas, umas dicas, sei lá, tá bom, depois a gente vê isso, não, essa luminária foi minha mãe quem nos deu, melhor deixar aqui mesmo, sabe, andei pensando em como vai ser daqui pra frente, ah, desculpe.

Olha, eu sugiro que você mobílie um apartamento modesto, não, sabe que em nada me agrada aquele do Pari, o da Vila é muito mais o seu jeito, claro que é pra você, por isso insisto na Vila, próximo daqui, tranqüilo, arejado, moderno sem frescura, é daqui do bairro que seus caminhos se descortinam a cada dia, sei que não quer alterações dessa ordem, além do mais o aluguel é mais barato, temos amigos ali no prédio, poderíamos… Sabe, pra ser bem sincera, sugiro coisas e lugares, sugiro cores e caixotes mas preferia mesmo é que ficasse, que pensasse mais um pouco, dou o tempo que precisar, preferia é que não tirasse nunca seus chinelos (que só usa vez ou outra no pior do inverno) da margem do tapete, que mantivesse seus apetrechos de barba bem onde estão, nos organizamos tão bem aqui nesse espaço, preferia que continuasse se adiantando ao despertador, interrompendo o melhor do meu sono com seus braços de fera obstinada, que sujasse toda a louça e a deixasse por lavar, que durante os dvd´s do fim de semana me emprestasse um desses ombros para anteparo, que seguisse traçando o futuro daqui mesmo, comigo.

fevereiro 23, 2008

“sem o jogo não há juiz / não há jogada fora da lei”

(O Exército de um homem só (I), Engenheiros do Hawaii)

Sinto um cheiro já antigo. Percebo, vem da lâmpada do abajur. Fótons que já iluminaram a mesma insônia noutras noites tão perdidas – pensamentos giratórios espanam a rosca da razão: obsessão. Insatisfeita com a preguiça de mates ensaiados, forjo um mundo mais ameno pelas lentes embaçadas num abraço.

Cercada pelas paredes do abismo onde envelheço sem pressa – depressa – abro mão de ser quixote. Pelos dedos escorre uma massa sangrenta que anuncia um novo fim – nono fio por se romper. O desenho das cartas jogadas pelo chão se contorce num bailado improvável – sem trilha sonora.


O medo passou por perto.


Silencio. Silêncio.

Déficit de Quarto Nascente

fevereiro 16, 2008

Desperto com o meu próprio grito: socorro-corro-corro. No corpo cansado, suor, sede e solidão. Câimbras e angústias. Tateio a metade desocupada da cama – luto secreto por todos que se foram – que num automatismo previsível conduz à mesinha de cabeceira. Tateio. Livro, óculos, relógio, água. Bebo. A sede já se encolhe. Miúda – some.

Afundo a cabeça no cheiro que adivinho ser travesseiro. Os pensamentos acordam. Me vem a criança que pergunta mãe, por que a gente dorme? Pra esquecer um pouco, meu filho. Não devia ter dito isso, devia ter tentado ser mais mãe. Devia ter iludido mais. E me vem o poeta, as contas, a rotina, acendo o abajur.

No silêncio, esbarro em armadilhas que prometem decifrar o vazio. Astuta, repito tal um mantra: vazio é só fome. Vazio é só fome. Vazio não dorme. Ligo a TV. Exorcismos urbanos. Desligo a TV. Fito o telefone implorando algo indefinido. Impotente, finjo respeitar seu silêncio. Penso, leio. Penso, adormeço.

Num vagão de trem lotado por pessoas dos mais variados odores, vê-se um rato cinzento surgir na plataforma. Se equilibra nas patas traseiras. Nas dianteiras, segura um guarda chuva na direita e me aponta com a esquerda. Todos me olham. As gargalhadas irrompem nas gargantas. Socorro. Corro. Corro.

O rato também é canhoto.