Archive for the ‘Marasmos urbanos’ Category

fevereiro 20, 2014

Ainda hoje eu desconheço as retas, mas já improviso atalhos. Porque me sinto pouca se me alegro com suas migalhas indecisas. Só sigo aprendendo a.

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miércoles (sem muito de especial, só outra cena urbana cheia de monóxidos)

novembro 4, 2008

Não – disse finalmente no último instante, no transcurso do derradeiro segundo, quando cessam os juízos e só resta a voz, quando as previsões saem de cena à sua moda altiva, abrindo caminho à sorte que não se pode prever ou escolher, quando a música silencia e um zoom de câmera impiedosa diz xeque (mate) anunciando que o tempo acabou, vinte e cinco caracteres para o ponto final, no máximo (condescendência sádica de quem conhece a suficiência de três ou quatro). Não – disse numa mescla de fonemas encadeados num sentido que só se pode compreender depois, num sopro de idioma que ainda não se reconhece como código possível, como tom melancólico ou austero de melodia sem instrumento. Não – repetiu amparando-se na superfície do balcão, situando-se no vão do próprio eco enquanto as mãos tateavam uma distração qualquer, um escape barato de plástico ou papel recicláveis à espera da lixeirinha colorida, da mão doutrinada que os guiaria até lá defendendo triunfantemente os elementos oprimidos pelos hábitos de lixo e isopor poluentes, de pilhas sem destino a se acumularem em vapores tóxicos de calor e fendas. Não – recordou começando a sequenciar os fatos (as falas), a dar corpo ao que até então era não mais que insólito e discreto em seus intervalos delimitados de começo e fim, de frações infinitas a atrasar ou adiantar os ponteiros sempre em movimento (circular, sempre circular – de réptil quixote num niilismo esperançoso a perseguir a si próprio em sentido anti-horário – subtraindo as horas ao encontro do passado). Não – repetiu silenciosamente adivinhando o timbre que teria chegado aos contíguos (mas não havia contíguo algum, distribuíam-se todos em mesas redondas distantes de onde emergia o coro desafinado de argumentos e risadas dos adaptados, no balcão estava só, estatisticamente irrelevante, a observar os modos preparados dos que buscam par ou glória).

Chega – variou cansando do monotema recorrente, levantando-se na ressurreição anunciada de quem situa as bordas e se vai sem hesitação, tomando num só gole a última sobra de vodca aguada pela impaciência dos três cubos de gelo que pedira pouco antes, naquele mesmo instante lento em que fitou o telão a banda o show e se cansou de ser platéia sempre e sentiu que algo se distorcia num prenúncio de atividade e se orgulhou desse algo ainda vago embora visivelmente transbordante de ímpetos inéditos de liberdade de vilão e disse não. Pagou desprezando o miúdo do troco pela primeira vez, com a certeza tardia de poder ser ver ter ler mais, mais, em algum outro lugar, provavelmente, mas já não importavam os cenários desenhados nesse concreto estável (mas não haveria nunca outro possível, sabia), levantou-se. Sentiu a tontura tão pertinente ao momento de álcool e arroubos reservados ao particular do substrato dos órgãos, vacilou no equilíbrio e na vontade apoiando-se na banqueta que então já se ia rumo ao chão em sua companhia de pouco tônus, o grudento do piso fixando os cabelos longos, a curiosidade risonha e sua perspicácia a tecer hipóteses um tanto óbvias, acertadas até, embora nenhum comentário se fizesse próprio a essa queda sem som ou cor, a banqueta ainda quente e sarcástica com ares de quem já previa a sucessão de não e chega e queda e a aceleração calculável dessa atração de massas assimétricas em forma e textura que lhe chamava pra perto, mais perto.

agosto 26, 2008

Como de costume acontece, o tempo se adiantou aos meus passos e perdi a hora (o relógio eu perdera anos antes) sem estar sequer na metade do caminho. Quarenta por cento, por facilidade de referência – estimados pela proximidade do sobradinho alaranjado de onde ouço sempre um disco já um tanto fora de rotação (decerto empenado pelo calor da improvável tonalidade das paredes), cantando você que já não diz pra mim as coisas que eu preciso ouvir, e me arrepio num pressentimento vago que só se esvai ao me entreter com um citröen arredio ou com as gargalhadas adolescentes vindas de uma garagem pouco mais à frente (marco dos cinquenta por cento). Mas quarenta era muito pra ser revertido naquele bafo de inverno seco, então segui andando como quem já tem novo rumo. Mas não tinha, que rumo teria uma atrasada aguda a caminhar num concreto irregular que lhe exige atenção?  E tampouco era-me de grande valia a possibilidade de alcançar essa reposta – já parecia supérflua qualquer coisa que não me deixar nessa inércia de passos preciosistas.

Então continuei a caminhada improvisada à procura de um fim pra essa história – poderia surgir de qualquer parte, claro. De cima, inclusive. Mas não veio, deixou-me num desamparo conformado gastando energias a esmo pelas ruas da lapa. Duas ou três cenas me pareceram notáveis, mas prefiro economizá-las para momentos mais oportunos. Vi aquele pôr do sol sem horizonte tão conhecido pelos cosmopolitas, seguido do anoitecer inquieto que me sugeria a (meia) volta necessária.

Voltei – trajeto decidido e silencioso do qual  não tenho muito a dizer.

orelhas vermelhas

agosto 16, 2008

Posando para a inconveniência de um fotógrafo mais fotógrafo por circunstância que por vocação, tentei discreta suprimir o amarelo do sorriso. Uma das fotos seria selecionada – sei lá por quais critérios – para exemplificar o rosto da autora numa orelha que eu quis discreta embora vermelha, mas a editora, meses depois, faria num azul profundo e previsível, padronizando os lançamentos de julho. Tentei ainda objetar à armação dior que a assistente não sei do quê já apoiava em meu nariz, ao blush que disfarçava minha palidez tão sincera, à postura que nem décadas de treino e correções conseguiriam deixar tão exemplar. Tudo em vão, nem demorei a notar a fajuta simulação de compreensão que a equipe encenava aos arrogantes autores – só porque escreve(ra)m, decerto se justificando assim por não trabalhar,  permitem-se opinar na labuta alheia – e me calei na recordação vaga da fajuta simulação de compreensão que eu mesma tempos antes encenei frente aos editores revisores corretores, resignando-me por fim a assinar um livro que já não era o meu.

Quando se foram os flash e as lentes, apressados por se ocupar dentro de quinze minutos de um talento mais lucrativo, suspirei ingênua acreditando que o pior já passara. Recompensei-me pelo aborrecimento permitindo-me contrariar alguns dogmas médicos: caminhei experimentando ainda a nova postura até a máquina de café gratuito no primeiro andar, peguei um, acendi um cigarro, peguei outro e só me abstive do terceiro constrangida pelo olhar contabilizante da recepcionista. Revigorada pelo ritual transgressor – e naquela idade já eram necessárias tantas privações – rumei ao terceiro andar onde deveria ainda esbanjar mais um pouco da simpatia que nunca me coube falando sobre minha vida e obra ao encarregado da contra-capa.

O encarregado pela contra-capa (EPCc), com quem até então meu contato se restringira a dois ou três emails agendando essa entrevista, como ele insistia em chamar, era um tipo geração marxista 2020, não obstante o rolex legítimo e uns outros itens que na época me chamaram a atenção – tanto pelo mau gosto quanto pelas marcas -, de expressões ensaiadas e gestos plagiados. Se apresentou recitando um nome composto e mais quatro sobrenomes, o que concluiu disponibilizando-me também um apelido, enquanto estendia a mão concedendo-me um aperto frouxo e desgostoso. Explicou-me que deveria embasar sua resenha no que sua sensibilidade pudesse captar durante a entrevista e que, para isso, precisaria contar com minha total honestidade e coragem para despir minhas emoções diante de um desconhecido. Consenti que começássemos num vacilante balançar vertical da cabeça.

– idade?

– quarenta e oito.

(EPCc anota)

– nasceu onde?

– são paulo.

(EPCc anota)

– profissão?

– escritora.

– profissão?

– bom, eu já fui professora e economista mas depois cursei letras e atualmen

– quiceprefere?

– arquiteta

(EPCc anota)

– trabalha aonde?

– não trabalho com arquitetura

(EPCc rasura)

– filhos?

– não – menti.

– casada?

– sim – respondi já sem muita certeza.

(EPCc anota)

– hobby?

– escrever vale?

– fala otro

– golfe

(EPCc anota desatento à ironia)

– fala uma coisa relevante da sua juventude

– relevante pra mim ou pra você?

– (irritado) fala uma coisa que te fascinou

– você

(EPCc dessa vez percebe a ironia)

– (mais irritado) o que é o livro pra você?

– criação materializada

(EPCc anota)

(Desconfio que tenha escrito outra coisa)

Mais umas perguntas assim delicadas e nos despedimos sem pesar. Voltei para casa a pé, envergonhada com a possibilidade de um taxista adivinhar o que fazia eu ali na editora. Mais uns tempos e saía a primeira – e última – edição do meu livro. Medíocre em vendas, contraditório em críticas, sequer pude sentir a tal realização que tanto comentam. Não presenteei ninguém com os exemplares que chegaram pelo correio numa caixa elegante – nunca fui original em dedicatórias – nem escrevi mais nada.

agosto 7, 2008

Só acendi a lareira com aquela esperança trêmula dos que buscam calor, não premeditei nada do que então já se esgueirava, sabe-se lá da onde – do acaso, da insanidade que me cabe. Mas aí parei – de escrever, claro. Que pouco adequado esse começo eco. Mas não tinha outro ou, melhor, tinha muitos, todos so(m)bras. Então deixei-me assim, às voltas com o incontornável, em pacíficos verbos de ligação, vendo a chuva molhar o que eu não quis proteger. Deitei-me e fingi cansaço, num velho ritual de quem se aproveita da insônia – mas ela, precisa, não cai em armadilhas. Adormeci nomeando as rachaduras na pintura do teto, nem tive tempo de lhes atribuir um passado – restou-lhes apenas um futuro: esperar que eu despertasse como sempre, pouco situada, olhasse pra elas com escasso interesse e logo me ocupasse de alguma outra coisa.