Archive for the ‘Nós e (re)tratos’ Category

fevereiro 18, 2015

Era uma força, um arrebatamento imperativo que me levava até aquele quarto escuro. Já não sabia se era da minha vontade estar ali, fato é que pra lá sempre voltava, fosse de cabeça erguida, fosse de olhos mareados e coração aflito. Mal entrava e a porta se fechava numa violência definitiva, me encerrando numa solidão que não era de circunstância, mas de natureza. Uma natureza morta, talvez, um jogo de espelhos sem som. Eu cantava num beco sem eco, era isso. Passei com cuidado o vestido estampado – não convinha queimar-lhe em qualquer outro estado. Estiquei com a perfeição que pude o tecido num cabide de madeira. Queria que aquele final fosse algo pra além de despedida, que tivesse um acalento estético, no mínimo. E assim fiz. As chamas subiram e consumiram todo o conjunto, restando apenas aquela angústia de uma quarta-feira de cinzas chuvosa. Insaciável, vasculhei meu claustro à guisa de novos desapegos – era preciso que mais matéria desfeita me assegurasse de alguma liberdade possível. Ilusão ou respaldo, era esse meu único anseio. Escrever um livro eu não posso, que minha arte é antes parir textos aos solavancos, nuns soluços compassados a uma realidade que desconheço. Mas como se pode ter alguma continuidade assim? É a pergunta que faço. Que me faço. Os minutos somam anos, que passam envelhecendo minha sombra num misto de alívio e mal-estar, e aqui eu me mantenho, sobre pés fatigados, resignados a uma recuperação sempre inacabada. Um porvir duvidoso de defeitos ofuscando talentos, um vai e vem de expectativas cretinas, admito. E uma imagem em preto e branco borrada do suor de outro tempo, num altar translúcido e inalcançável, mas ainda P&B.

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setembro 20, 2014

Enquanto procuro me encontrar, meu bem, enquanto persigo uma sombra gasta que me escapa a cada bote, esqueço de ti.

Me afasto de teus carinhos com medo de enjaular-me em teu conforto – que jamais será meu, por mais que me ofereça a ele, que lho ofereça a mim.

Um cubo, esse teu amor.

Saí num susto – um soluço da vida – da masmorra em que seguia esperando. Cheguei à superfície e não pude sequer cegar-me com a luz: andei rumo a algo que, embora desconhecesse, já pressentia.

Andei sem levar comigo o cantil de água dos viajantes. Andei sem o deslumbramento que o caminho ocasiona aos atentos. Andei simplesmente. Só andei. Andei só.

Se não importava chegar, tampouco importava andar. Seguia uns passos autônomos que me guiavam pela vida de promessas de.

As respostas estão todas em você, era o que me diziam. Acreditei que podiam mesmo estar, mas continuei – continuo – sem ideia alguma de como acessá-las.

março 6, 2011

(Mas) é precisamente disso que falo, muito embora saiba que você pouco me compreende, mas a compreensão, pensando bem, é o que menos nos vale nessas noites tranquilas, nesses abraços encontrados de vísceras vivas, o entendimento pode bem vir dessas peles que se aceitam sem outras perguntas, do vinho que bebemos juntos sem a pretensão dos diálogos. Deixemos então esse assunto para depois, para nunca mais, quiçá, e nos preocupemos em seguir esse rastro tênue de silêncio, batucando no canto da mesa o ritmo da música que já não toca – tocava antes? Ademais, sabemos o suficiente um sobre os dois, e já nos basta dizer só o necessário para que o timbre de minha voz possa ser de pronto reconhecido por seus sentidos ao meu próximo chamado, e também do contrário, pois, ainda que não nos calquemos na facilidade da simetria, certa dose dela faz-se precisa, tal como a exata coincidência do número de pedras brancas e negras ao início de uma nova partida.

(Porque) você me dispensa da convenção formatada das explicações de fundo, pintando-me num retrato fora da tela que não se expõe a qualquer outro par de olhos, alheios, como os seus, azuis, como os seus, olhos treinados ou fatigados, óleos de técnica ou arte que você alterna em movimentos seguros, grosseiros, até, como se eu nem mesmo estivesse aqui, como se sua gestão lhe permitisse o desperdício de um número na total ausência de luz ou cor, ou, ainda, como se eu pudesse, sozinha, diluir-me pelo auditório imprimindo-lhe a ilusão de uma multidão, ainda que parca e sem líder, ainda que tímida ou rouca, uma módica legião de expectadores atentos a se desinteressar lá pela metade ou aplaudir antes do fim.

(Então) em troca consinto – de bom grado, até – poupar-lhe o dia a dia do continente, reservando-lhe tão-somente fortuitas e caras e breves viagens à nossa movimentada e sólida e flutuante ilha, e só peço que esteja aqui, tendo ainda o rosto apoiado dessa forma sobre o punho direito, quando eu terminar essa história.

maio 9, 2009

“Margens, bravas, vagas”

(Madredeus)

Porque meu corpo hoje, querida, é um furor evanescente que se perde nas dobras cinzentas da memória, se dissolve na ausência de esquinas desse horizonte uniforme, do sol que só vem para depois partir, desaparecendo sob o mar salgado que guia a aridez da minha extensão até as pedras, então eu me reclino um pouco sobre o porta retratos que ainda me assegura os contornos do teu rosto e faço-te as perguntas que não respondes, que não me respondeste nunca, aí me calo constrangido pelo rigor do silêncio que me devolves sem muita ternura, só com a compreensão fria com a qual eu ainda hoje luto para me habituar, preservando as recordações nesse altar que construí para ti, nessa plataforma sacra que protejo do pó e da guerra, querida, impedindo que a opacidade do tempo furte o mínimo grau de brilho dos teus cabelos, que manche tua pele de anúncios de senilidade ou amarele as páginas do Drummond que me deste no aniversário de quarenta e dois, ou três, perdão, querida, as datas têm se confundido na languidez dessa espera, já me fogem os verbos e suas flexões acertadas, os nomes das ruas e das tantas cidades que visitamos, querida, perdão.

fevereiro 10, 2009

Abri a porta pensando em entrar pensando em sair em não voltar. Abri a porta na indecisão que me faz oca e farta, no rompante de um giro horário abri. Ali estava você sentado na mesma poltrona lendo um livro que eu não podia identificar dali, da porta, em pé em frente a porta, na soleira que atravessei em sentido contrário horas antes, um livro de capa preta, um retângulo colorido ao centro, um cheiro conhecido vindo do forno, a poltrona pré aquecida pelo seu corpo que se levantava dando lugar ao meu, um convite, um aceno, o indicador tranqüilo marcando a página interrompida, você tranqüilo sinalizando a poltrona que agora me contem.

Me sentei pensando em cair pensando em fugir em não lutar. Desviava meus olhos pro preto da capa pro colorido do retângulo, era uma janela verde, você suave abrindo um armário lavando taças trazendo um vinho, a capa preta descansando na mesinha de centro, a janela verde de madeira e vidro, você pálido de carne e voz, eu arrependida sentada na poltrona concedida em perdão, a madeira mais frágil que o vidro, mais verde que o vidro, eu adiando as palavras buscando um cigarro na bolsa que segurava ainda como se não estivesse em casa, a capa o retângulo a janela partilhando a mesinha com o par de taças vazias, a garrafa, a rolha, um par de taças cheias, brindemos.

Brindei pensando em quebrar o silêncio, sugerir um motivo, não precisávamos dizer o motivo, o cheiro já identificável te chamava ao forno, eu te chamando pra mim, eu com tanta fome te chamando pra mim, você desligando o forno cuidadoso lendo a embalagem, uns quinze minutos de espera, eu desligando as erupções de palavras que me ensurdecem, te chamando pra perto, mais perto.