Archive for the ‘Paulistanisses’ Category

fevereiro 18, 2015

Era uma força, um arrebatamento imperativo que me levava até aquele quarto escuro. Já não sabia se era da minha vontade estar ali, fato é que pra lá sempre voltava, fosse de cabeça erguida, fosse de olhos mareados e coração aflito. Mal entrava e a porta se fechava numa violência definitiva, me encerrando numa solidão que não era de circunstância, mas de natureza. Uma natureza morta, talvez, um jogo de espelhos sem som. Eu cantava num beco sem eco, era isso. Passei com cuidado o vestido estampado – não convinha queimar-lhe em qualquer outro estado. Estiquei com a perfeição que pude o tecido num cabide de madeira. Queria que aquele final fosse algo pra além de despedida, que tivesse um acalento estético, no mínimo. E assim fiz. As chamas subiram e consumiram todo o conjunto, restando apenas aquela angústia de uma quarta-feira de cinzas chuvosa. Insaciável, vasculhei meu claustro à guisa de novos desapegos – era preciso que mais matéria desfeita me assegurasse de alguma liberdade possível. Ilusão ou respaldo, era esse meu único anseio. Escrever um livro eu não posso, que minha arte é antes parir textos aos solavancos, nuns soluços compassados a uma realidade que desconheço. Mas como se pode ter alguma continuidade assim? É a pergunta que faço. Que me faço. Os minutos somam anos, que passam envelhecendo minha sombra num misto de alívio e mal-estar, e aqui eu me mantenho, sobre pés fatigados, resignados a uma recuperação sempre inacabada. Um porvir duvidoso de defeitos ofuscando talentos, um vai e vem de expectativas cretinas, admito. E uma imagem em preto e branco borrada do suor de outro tempo, num altar translúcido e inalcançável, mas ainda P&B.

março 26, 2011

Quanto àqueles pretextos sob os quais lhe visitava – em geral na escuridão das tardes umedecidas pelo acalento de uma garoa aguda – devo dizer que eram, em essência, sinceros. Devolver-lhe o casaco emprestado em virtude do repentino outono que se pôs a preencher a ausência de temas após o cessar da chuva do fim de semana anterior ou provar o assado de trigo ou o molho que eu alegava desconhecer até então, eram pretextos, confessei já no início, sinceros, também disse, pois a verdade das palavras é um xadrez complexo de aberturas e movimentos dum conjunto finito de possibilidades que se rearranjam permitindo que desfrutemos o pasmo – alegre ou não – pela escolha insuspeitada que faz o outro, maquinando os próximos passos no impenetrável do universo de sua criatividade. Mas naquela época não constava ainda de nossos repertórios – hoje vastos – a imagem que o outro nos oferece quando observados pelo prisma grosso das lágrimas que ensaiam essa valsa disritmada pela textura suave do caminho que as conduz até a simplicidade desses nossos sorrisos.