Archive for the ‘Retangulares’ Category

janeiro 21, 2010

Da plataforma central me lanço à piscina-esgoto, afundo enquanto ela já não azul, já não translúcida, opaca, fétida. Pastosa, agora é luta e quem sabe sobrevida, meus poros entupindo mornos, um rei branco sem honra, sem peões, abandonado à sorte de partículas flutuantes. Fim-de-jogo-colisão. Gritos em som lento perturbando a solução: por todo hidrato de carbono que mantem essa carne viva, pelo mal que nos empurra à escrita, destampe alguém o ralo!

setembro 14, 2008

Na poeira calendário do meu plano de madeira fiz um traço, depois outro. Mais alguns e lá estava a sequência de letras disformes – ou talvez fossem números – escamoteando o sentido que eu jamais viria a desvendar. Horizontais cedidas – cedendo – ao oblíquo do estilo em movimento anunciado pelo transferidor que já trago de memória – adjunto ao compasso agudo que manipulo sem corpo sem cálculo sem fluido.

Improvisei novas perspectivas, requintei meu espetáculo pobre de formas nesse substrato discutível de imaginação oscilante sonolenta – o fôlego raro, que eu então forçava de leve como quem se esquece da tarde dedicado em reanimar uma bateria já morta, já posta num retiro de matéria sem função.

Sem ação.

Lembro-me de onde guardei uma flanela.

Nova urgência

substantivo apressado dispensando contextos.

Resta agora

resta um: laranja.

julho 31, 2008

Outra vez me perco das bordas. Xeque – que um bispo negro deslize em minha salvação. Redenção. As bordas recuam a cada toque aflito. Com fuligem na pele, as mãos desobedientes, mancho paredes de quartos e quintos. Xeque – e toda legião se faz servil. O sangue estanca, as feridas cicatrizam. O nó insiste. E me lembro, na penumbra, vejo algo. E pressinto, não, não mais pressinto nada, foi-se. Xeque – e a providência não é mais que provisória. Vou ao fundo, toco sem leveza aquela velha fronteira. Os abalos são ouvidos ao longe. Mate. E todo o branco se faz leal.

Rotação de um sólido ou Fotoanálise da palavra orgânica

julho 15, 2007

Silêncio. Silêncio de excessos e de faltas. Só o constrangimento inundando a sala fria, é dia, é dia de… morrer de novo, gastar outra das sete vidas, uma para cada dia da semana. Jogamos com tempos e espaços, esbarramos em contornos de móveis – imóveis – maciços, matéria robusta onde sedimenta a poeira do ar sufocante que entra e sai pela janela branca – aberta para o chão.

As mãos buscando um ponto qualquer, ponto de apoio, ponto de fuga – sem rumo definido. Os ruídos se confundem, carrossel girando veloz, roubando cores. E a busca da palavra mais precisa, mais expressiva, mais… qualquer palavra.

A experiência formatada em discurso – fugidia – buscando a si mesma, frustrada pelos elementos dissolvidos no tempo que se passou. Pares que se separam e se perdem na imensidão de possibilidades, ímpares, díspares. E um contador de histórias, rejeitado, empurra sua carroça pela cidade barulhenta. A tensão transbordando pelos poros, manchando a pele, carrega o ar que inebria se inspirado – expiro (meu prazo).

O desconforto do bêbado que não dorme formiga nas terminações nervosas – sensíveis. A vergonha da nudez ante a um público que não a admira corroendo de censuras a pele seca, se mostra viva, se impõem tal pai severo acreditando educar. As palavras mutiladas pela memória reticente furtam sentido às frases antes bem feitas. E as importâncias se alteram abrindo espaço a urgências que não o merecem.

Vacilante, improviso um era-uma-vez precipitado no caldeirão da minha história – sopa espessa e heterogênea, que queima os lábios de quem prova, trova (im)prevista e sem rima.

Plano Espelho Plano

abril 5, 2007

Não corto as unhas, corto com as unhas o reflexo das unhas cortando o reflexo das unhas cortando o reflexo das unhas cortando o reflexo das unhas cortando o reflexo das unhas cortando o reflexo sem cores das unhas sem cores cortando sem cores o reflexo sem forma das unhas sem forma cortando sem forma o reflexo sem esmalte das unhas sem base cortando sem dó o reflexo sem brilho das unhas sem força cortando sem precisão o reflexo real das unhas virtuais cortando o nada.