Archive for the ‘Sonho?’ Category

abril 29, 2009

eu grito, hesito, sou bruxa, não, acudam!

eu falo enquanto sonho cômodos divididos, espécies diversas engolindo umas as outras, na parede: uma janela

eu estou aqui mas só sou lá, no outro lado da janela, uma fresta no vidro nem de todo cerrado deixa escapar minha existência

pro outro lado

eu vazo desse corpo lúdico

morreu, o carro, querido, foi um espasmo

enquanto isso o gato, um gato

atravessa a parede

pela porta

que eu não tinha notado.

(e agora um dejà-vu, andei postando essas linhas desde… os pulsos, o fogo, amarras, ah, chega!)

open

outubro 30, 2008

sentia a madeira incômoda nas costas esmagando o travesseiro demasiado fino enquanto ouvia sua respiração imprimindo ritmo àquela espera ingênua e lúcida, não, não, imaginava sua respiração imprimindo o passo,  afinal, seu ar é sempre o que não se pode ouvir quando a luz é pouca – como era, de fato, a penumbra de nossa estratégia predileta – até que se anunciou o momento. Erguemo-nos atentos, quatro orelhas à moda dos pavilhões caninos, prontos a ouvir o barulho que decerto transpassaria impunemente o alumínio das venezianas, dispondo-se a matéria prima desse nosso lúdico exercício. E assim foi. Som que não era um ou sequer harmônico: um alarme, chamados, um nome dobrando a esquina, buscando alguém que já se ia num andar apressado (magoado ou enfurecido, sabe-se lá, são sempre tão particulares os motivos de quem vai), trânsito na garoa, as buzinas que não mais assustam, acostumados que somos. Cumprindo as regras tacitamente acordadas pegamos cada qual um pedaço de papel dentre as inúmeras filipetas reservadas especialmente para a ocasião, os lápis apontados – pelo menos durante o escrever das primeiras linhas; afinal, lá pela quarta ou quinta iam se arredondando numa espessura crescente, roubando precisão aos nossos garranchos, imperfeitos por si mesmos, mas era outra parte do combinado não nos ocuparmos de apontadores laminosos, aceitávamos placidamente o desgaste natural das pontas até onde fosse possível e depois… depois… não estava combinado, talvez fosse esse o término do jogo, a hora de ocuparmo-nos com algum outro improviso, ou talvez a gente tateasse distraidamente a mesinha de cabeceira em busca de um auxílio, ou poderíamos começar a falar em vez de escrever até que só houvesse bocas e ouvidos e um dos pedaços de papel escorregasse por nossos dedos, pelos meus, digamos, e se perdesse entre um cobertor enrolado aos seus pés ou planasse silencioso e invisível até aterrizar debaixo da cama, onde dificilmente seria localizado em menos de um ou dois meses, ao menos que também outra coisa se perdesse, um brinco, meio par de sapatos, a preguiça de limpar o quarto numa tarde cinzenta.

“Só o nada me atravessava na languidez das horas – diz apontando os dedos tortos de cigana eslava refugiada num trópico qualquer, sua arte inútil na latitude em que previsões não bastam.”

“O copista corria atrás do ladrão (que já há meses cumpria suas horas diárias de silêncio corpo estático – auto-imposto, decisão tardia na rabeira da constatação da rebeldia dos músculos: a perna direita sempre sapateante sob as mais diversas mesas, os dedos, lábios, sempre em busca de um novo cigarro mesmo, os joelhos, cotovelos, enfim, toda a sorte desafinada de movimentos tão  inevitáveis quanto incapazes de deslocamentos mínimos, patinantes no repetitivo da rotina morna, já chega, bradou recomposto fazendo vacilar o zumbido da cabeça, companheiro assíduo, já chega, anunciou recobrando seu centrinho particular de possível controle, já chega, repetiu pela última vez, aguardando que também o indicador esquerdo tomasse pra si a ordem recém-estabelecida.

Mas logo lhe ocorreu – ou se fez notar – que decidir não bastava, baixou a cabeça numa derrota provisória maquinando a decisão seguinte. )

Alcançou-o”

Por la noche.

setembro 9, 2008

Sem palavras calo cúmplice da precisão de vozes outras, ditos risos inventados marcados na lentidão do meu compasso poço gosto de… damasco! Língua acima, meras rimas, reverto óleo da meia tela esquerda – flanco conciso de escamas voláteis.

Atravessada a praça, desço correndo a rua inevitável de sobrados em reforma. De longe já vejo um pai, pai, meu pai?, à espera do velho que ouve a campainha e levanta sem pressa como quem se acostumou a receber visitas amáveis e as grades já sucumbem em mãos embrutecidas que recobrem sua extensão com telhas verticais aluminosas quando de roupão e chinelos o homem abre sua portinhola reservada e não vejo o pai desaparecer do outro lado –  meu imperativo é correr e nada mais não olhe pro asfalto (mas eram parelelepípedos) poeirento não adivinhe a explicação que inexiste por enquanto, siga seu anfitrião enquanto descarrego essa aflição de tempo curto e espaço longo, enquanto corro corro corro até chegar ao último sobrado de escombros inefáveis e constatar que

ela (quem é ela?) estará dormindo no segundo degrau, o preto chanel contrastando a pele clara enquanto ele (?) fala ao telefone

baixo, bem baixo

pra não acordá-la.