Archive for the ‘Submundo da imaginação’ Category

Notas da invenção de um personagem inacabado

maio 12, 2008

Emudecida, conduzo meus passos à primeira esquerda: rua sem saída. Meus sapatos resistem, aqui não, aqui não. Insisto, venço as toneladas de solas e couros que me empurram de volta à segurança da avenida principal. Caminho em direção à saída ausente, o adensamento de fumaça e fuligem turva o ar espesso que respiro num esforço calculado. Revisto meus bolsos buscando a chave que não tenho – metal ausente que anuncia o fim. Mas a porta está entreaberta, empurro. Na contra mão da fúria das chamas que descem pela escada, subo desviando das pegadas impressas em sangue que colorem cada um dos degraus. A escada exala um hálito um tanto humano de álcool forte e desejos inconcebíveis – vomito. Quarto andar, é aqui. A porta não existe mais, consumiu-se, resta apenas a abertura na parede divisória. Vacilo como quem já quer outra coisa – provisória. Atravesso, através do avesso, estanco.

Estou na sala que buscava. Nas paredes, chamas, pelo chão, crocodilos acinzentados, nas beiradas, baús sem data. E numa quina, sentado sem conforto, um rapaz fuma um cigarro sem filtro, impassível. Dou um passo à frente, seus olhos me acompanham – imagino ser o filho esquelético que Frida não teve. Na ponta dos pés, descubro espaços entre as escamas vivas e me aproximo de um baú escolhido sem critério. Abro-o apressada, as chamas estão próximas. Xales, livros, papéis, encontro-o: meu velho manuscrito de linhas não justificadas que escolhi resgatar. Sem voz possível, leio a primeira frase. Emudecida, conduzo meus passos à primeira esquerda: rua sem saída. Adivinhando essas palavras, num gesto bruto e preciso, o mexicano arranca a camisa que veste, orgulhoso de expor a pele marcada por cicatrizes cheias de histórias e escoriações sangrentas, purulentas.

Levanta-se altivo e oferece a mão direita ao fogo. Distribui a chama por seu peito, pelos ombros, cruel, pressentindo minha dor ao ver as cicatrizes se desfigurando. Gotas de suor pingam a seus pés, atraindo os répteis sedentos, que, ao tocarem sua pele, são reduzidos a cinzas, desaparecem todos. Saio correndo pelos escombros da sala, mas a escada desabou. Encurralada, apelo ao sacrifício improvável: distribuo pelas labaredas as páginas que seguro. Soluço a cada uma que se esvai. Ajoelho atordoada, sentindo sob as pernas a calçada da avenida principal. Encolhida, ouço o estrondo da explosão. Levanto, e me ponho a caminhar sem rumo.

abril 22, 2007

Acordo na escuridão sem tempo nem espaço. Vago pelo árido deserto não situado em mapa algum. Só o que me acompanha é o som abafado de uma goteira pingando em balde metálico, enferrujado.

Perco meus pés na areia cortante, um depois do outro. Meu corpo já é autônomo, alheio a meus desejos, se move por caminhos que desconheço e nem sei se gosto. Por vezes se desequilibra, tomba, levanta, mas nunca me pede ajuda – cruel orgulho apoiado em ilusão. Quando se esgota, dorme. Então o barulho da goteira dá lugar a um alarme digital, vou para outro deserto, cheio de gente que crê conhecer o tempo e o espaço.

O Sétimo Apelo

abril 1, 2007

Encolhida no epicentro cru da dor sem moral jogo cartas com uma velha senhora – negra esfinge contra quem não tenho forças. O prêmio: minha alma dilacerada. Perco o jogo.

A velha tem ainda uma exigência, quer o prêmio embrulhado em matéria viva. Vago entre as monumentais pedras ao meu redor. Elas se apoiam em outras pedras ainda maiores, não há terra, não há verde nem outra cor qualquer. Encontro uma ponta mal chanfrada pelo vento sem tempo, aperto contra ela meus pulsos cansados até que escorre um fluido viscoso, poluído de vícios e vírus. Embrulho. Entrego à vencedora, que ri até meu total ensurdecimento e vai-se embora.

Volto para casa, onde nada mudou e nem mudaria, sequer os ponteiros do relógio esquecido na parede.