Archive for the ‘Vozes (roucas)’ Category

novembro 26, 2013

Tem noites que são frias. Ainda que o mercúrio transborde dos termômetros, são geladas de um gelo que não volta a ser água. Tem noites que são densas, mesmos quando as vozes vizinhas são rarefeitas e animadas. Tem noites que são hoje.

Tem dias que terminam e dão lugar a noites frias, a noites fumacentas em becos bem decorados. Tem noites que são glaciais a despeito desse suor que nos escorre pela testa – e desce não se sabe pra onde. Tem noites em que só se treme, que são óbvias, laicas, e vem aos pares. Que se sucedem sem nunca terminar. Que esmorecem sem trazer alívio, num suspiro último que não chega a ser fim.

Tem noites que são transe com pouca terra, argila seca de lugar nenhum.

Noites de joia falsa, em que todo apoio é alça de malas que não se pode levar para onde não se pode mesmo ir. (Me empresta essas luvas que não sinto mais as mãos…). (São luvas de boxe, essas, é pra outro tipo de inverno que servem).

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março 14, 2011

(…) miando aos cantos (não),  à fúria de um tornado (não), miando breve e disperso, lamentando o subúrbio que é esse ruído a rodear a voz amorfa (não sei), resmungando a dor que não lhe aflige (já sei), tecendo a vida num ir e longe de tráfego lento  (já que mais importa esse traslado desconhecido). Sou então a alma dos poros, os poros do brilho secreto do radar de velocidade excedente, o excesso de cal no alto dos muros (sou a alma dos porcos agora, chafurdo a lama da biblioteca do teu coração manso de menino). Verde, esse ímpeto (era um guincho meio elástico aquela forma de pedir licença entre as brumas), dois reais a quem chegar antes do segundo ato de covardia (molha esses cabelos acobreados para que pareçam lisos horas depois do anoitecer, para que pareça belo quando os outros voltarem exaustos de paz, dança a insistência da coreografia que lhe cabe nessa horas), eu, nervoso, à espera da encomenda que devia ter recebido ontem, disseram, que devia ter reclamado noutro setor, disseram, eu, que devia era ter mais paciência, disseram, e ser mais doce e burro, eu acho. Meu rasgo outsider à espreita de.

miando aos cantos (não), à recusa do prazer miserável dos bêbados e loucos (não), dos que morrem sem tocar a beleza uma única vez (in-tan-gí-vel!), porque vi aqueles carros sendo roubados e engano não houve, garanto, (agora vá enquanto rearranjo os retalhos noutra colcha), (corre, penélope, corre e se safa do ódio que já retesa o calcário frouxo do meu ócio, perdão, desejo era o que ia dizer), (o óbvio). Somente. Meu fardo, então, sacolinha de frutas variadas, dúzia do mais puro sincretismo tropical que trago da feira-livre das paixões de amanhã de manhã, daqui a pouco, em fato (torpes, suas referências, nem clareou o céu e quer arrancar outra página da folhinha, que, aliás, é virtual, percebe?, arranca, mas não pode levá-la a parte alguma), (arranca e condena-se a segurar o nada eternidade afora). Engraçado, esse sopro.

novembro 17, 2010

(Enquanto) Definhava na lúgubre descida dos decadentes, já não era mais eu. Estava, em verdade, sentada à beira, no chão, chão de acostamento que insiste em inexistir, teimoso na pretensão de se abstrair da concretude do tato, da voz (Onde está você, amor?), imperceptível aos que sobem apressados a firmar o desenho das panturrilhas decididas, a ser e querer do interior dessa vida orgânica que já não me alcança (Seus afagos descolam-me as escamas, percebe?). Tinha mais era um cansaço de velha, uma dor de cadela selvagem, dor de cansaço, arrepio de dor.  Tinha mais era a vontade de pendurar os óculos no decote discreto e deixar de vez de me ocupar da tela dupla inaugurada pelos riscos nas lentes, de tornar-me parte do primeiro e único plano, prescindir da profundidade, que é, ao fim, ideologia carbônica sufocando a honestidade simplória das hemácias (Há força nesses pulsos delgados a despeito de tanta aposta no vermelho, por que é que não vicia suas cartas e chega rico em casa esta noite?), (e entra sem fazer barulho e surpreende-me a pobreza dos pensamentos circulares já pensados antes e antes ainda, assusta o meu silêncio com a sua presença – que é meu desejo) que se põem em marcha sem nem questionar esse circuito fechado, vazando em baixo volume pela fenda que então toma pontos num pronto-socorro onde não há empatia ou iodo à disposição dos feridos, onde as macas entopem a passagem afunilando o tempo da liberdade (É um urro apenas!) dos que não têm um nem outro, dos que perdem o que nunca chegaram a desdenhar, tal um lobo que só teme a morte do rival, fil(h)a de operários famintos, que têm, no entanto, para onde voltar depois de chegada sua vez, registrada sua reivindicação num protocolo estéril de necessidades quiçá legítimas (Me repito mais outra vez, perdoa, não tive opção).

fevereiro 20, 2009

Depois do almoço, sempre depois do almoço, (café?), quando convêm que cada coisa tenha seu próprio nome, quando se vai o rigor e se pode crer que cada coisa tem seu próprio nome, (café?), quando o corpo se distrai numa satisfação provisória e abandona a voz ao contato oco da falta de substância, de ritmo, depois do almoço, quando o adiável e o trivial se confundem numa mescla temerária que se recolhe a um canto distante embora visível (depois do almoço tudo já foi visto), a curiosidade se esvai na repetição dos padrões e suas variações, uma fenda em círculo engole a vontade, (há algo errado?), a frouxa ação que se pode conquistar é no máximo mecânica, (é um arremedo de vida se mexendo, parodiando atos ensinados, veja, é um rato mal modelado querendo existir). Depois do almoço, enquanto o filme finge acontecer, enquanto as falas me chegam graves e lentas perturbando essa submersão em água sem gás (no simulacro desértico das poças, no aquário, na tosse dos afogados), eu farejo a viscosidade do nada e isso é tudo, essa morte em cores que escancara o mesmo, o nada, (que horas são?), a morte diária dos vivos, a morte tortura do nada dos nem tão vivos, (é um corpo vivo a despeito do nada), o saber brutal de que o dia continua, (temos mais quinze minutos), a inspiração comprida de saber que não acabou, (vamos indo?), a demora sem notícia do consolo do escurecer. Depois do almoço ainda é dia, (tá na hora), depois do almoço é tarde, é cedo pra desejar a noite, (você não dorme nunca?), cedo pra ver o que se olha, cedo pro sal das lágrimas ou do suor, cedíssimo.

fevereiro 17, 2009

(Mas) Eu que sempre falei em arte, em estratégia, em lentes, vivo agora esse estranhamento sem alívio dos movimentos lentos, das costas pesando numa renúncia que não é minha, que só endosso por não ver alternativa, que acolho porque me invade sem se dissolver, que vem acompanhada dessa melancolia que vai, sorrateira, se infiltrando pelos ossos sem que eu possa lhe identificar a origem ou os vínculos, sem me dar sequer uma chance de aceitá-la numa negociação de acordos antecipados às ilusões, (você vem hoje?), de vontade de não ter vontades, de calar o vão que então é tudo, (você joga?), de secar a saliva inútil e engolir os nós da azia do inconformismo sem maiúsculas, sem agudos, com o rec(h)eio que nem chega a ser medo na representação desse uivo tão pouco humano de feroz que é, de grave e denso que me estremece sem deixar cair, negando o alento do chão, do débito de mais (menos) hum peso uniformizado na mensuração dos loucos, das compras, dos encontros normais, dos filmes que não assustam, das ligações que já se espera, das despedidas ou da canastra (real) de domingo, (sua vez), passo, (não pode passar), passo, (não sabe jogar), eu não sei jogar, não sei jogar, venho aqui aos domingos porque é o que devo fazer, tem de ser feito, saio de casa quando o telefone toca (você vem hoje?) e eu compreendo que a opção não é minha, a resposta foi dada por uma voz irreconhecível que responde desse lado da linha, (    ), saio de casa mas não sei jogar, pras ruas há mapas, então eu saio de casa sem saber jogar, lá pelas três da tarde, logo depois que o telefone toca (você vem hoje?) e uma voz desse lado responde sem saber ou sem lembrar ou se importar que eu não sei jogar nem disfarçar (não sabe jogar), que o desfecho já é previsto (não sabe jogar), muito embora não fosse assim uns tantos domingos atrás, quando eu ainda não tinha sido tomada e nem podia imaginar esse estranhamento sem alívio dos movimentos lentos
(não sabe jogar)

dezembro 4, 2008

Hoje eu abandono meus óculos e me entrego a um tato incerto de teclado não decorado, de risco de não salvar, de gravar num lugar impróprio os caracteres da cegueira incompleta, da pontuação enigmática ao sonho que se basta (e falha), à consciência que já não acesso. Só um teclado preto inflamado por brasas que derrubo sem notar, letras dispersas sem padrão: eu imagino o nada e me deixo levar, temporária. Eu pressinto as rugas, livro o ralo dos cabelos, leio obediente os rótulos formatados, respiro a capacidade de meus pulmões enegrecidos enquanto o martelo da reforma vizinha marca o passo alheio ao qual me rendo já sem entusiasmo, escrevo pra não ler o lento decifrar do sofrimento, eu me envergonho e me calo enquanto compactuo. Eu me envergonho e me condeno a um novo cigarro resignado, me condeno a sobreviver por um tempo indefinido.

O 1 esguio já não difere de outro numeral, ainda assim miro o relógio e me apresso um pouco, me alimento do coágulo de gelatinas vermelhamente translúcidas, e saio buscando a sorte da nova aprovação, ignorando as placas seguras do caminho, fecho (por fora) a porta aprisionando acordes respeitáveis na eterna reverberação do oco da decoração impensada, das formas desconjuntadas, das lacunas desejadas nas caixas de cartas nunca escritas, uns arcanos pacientes. Me aventuro pela desordem a despeito das precauções das mães (trancafiaram-me na mudez da lucidez dos surdos de onde só fugi pra poder voltar depois, me impuseram uns modos de debutante alegre e o aceno vertical da condescendência – que nunca me caíram muito bem), eu olho pra baixo e não grito, suo a aflição dos escravos preguiçosos ao listrar o papel em branco como quem garante a volta espalhando migalhas, controlo fósforos incendiários que não causam danos, me perco e ainda assim duvido, meus sapatos vermelhos não têm intenção, eu trago no bolso a peça desgarrada ao acaso (no random impossível), no momento em que me deixo avaliar pela falta de escrúpulos dos mestres eleitos (por quem?), por minhas digitais alienadas num número grande traço xis (por quem?) devolvo os méritos que furto em bibliografias anunciadas – o frio hipoglicêmico da modéstia sequer existe, na verve de piadista incrédula me faço sócia da fruição burra a desprezar décadas idas quando o sinal fica verde e o de trás buzina com a autoridade dos que têm o que fazer.

Adentro ironicamente o tórax numa estampa de flores róseas, regozijando o trunfo ingênuo do cinismo, fotografo minhas próprias costas num espelho de falácias (a miríade de pixels orgulhosos denunciando o sangue a escorrer pelas coxas incautas), abro as mãos num espalmar obsceno de renúncia inevitável: meu pulso inconstante prescinde de exemplos (talvez os sedimentos se precipitem ao fundo num só tempo, numa sincronia ensaiada, e não haja mais onde pisar). Rumino um capim sem raiz e me liberto apaziguada, encho o tanque de carpas horrendas e me vou sem adeus (esquecendo o gato solto por ai…). (Meu reflexo agora é uma mancha densa na tela de 17 polegadas – mas como estimar diagonais? – que eu tento dissolver e não consigo, eu me cubro com um manto antigo, tecido pelo vazio dos ponteiros, tentando abafar meus poros e não dá certo, eu falo baixo, falo alto e a diferença é pequena – eu sequer filtro meu próprio ar, sorvo bocados indiscriminados à espera da continuidade mórbida). Mas não leve a sério esses devaneios tortos, a tentação do espetáculo – ou o espetáculo da tentação – me tomam por instrumento frouxo, ai eu abandono os óculos e me subordino a leis fictícias inventadas sem qualquer propósito que as justifique, eu acompanho sem censura um balanço que nasce pungente e espera que uma farta dose de realidade o assassine em nome do razoável, preservando as sobras viáveis num constante recomeço de recomeço – que eu evito sem querer, me debatendo pela comodidade de construir qualquer coisa de incompreensível – e assim isenta de julgamentos – desviando do pragmatismo exigido, do pleonasmo, do sal, da fome e das filas ubíquas, da existência de um Sancho que se sustenta vivo sem o apelo ornamental da dúvida partilhada. Ah, mas certas coisas não se prestam às palavras de improviso, e eu tento mesmo assim, traço o plano da cruzada fracassada de antemão (elas se protegem nos limites da ambigüidade, no sarcasmo viciado, no excesso de barulho) para ter alguma certeza medíocre à vista.

Eu evoco deuses mortos no correr das linhas, jogo a âncora para descobrir que não há terra, assumo a primeira pessoa sem alternativa, eu quero chorar mas economizo prudentemente a água ameaçada, líquido petrificando na falta de fluidez, no crescente da viscosidade, ecolalia das paredes nuas. Eu aplico na pele um ponto-falso tirânico, um encontro forçado de bombordo e estibordo, cicatriz precoce que não advem, resistindo aos desígnios antinaturais da minha insensatez: a automutilação é irreversível, não há agulha que possa ser alcançada, não há vitrola pra essa rotação instável de giros em degraus horizontais. Já não sei que cor tem a mesa sob a toalha, o colchão sob os lençóis, castos se resguardando dos toques e olhares sob o véu da maquiagem colorida, acertada ao largo do suor e das lágrimas, do algodão benevolente espalhado uniformemente pela superfície, assentado pelos meses que se repetem ordenados.

Ouço um guincho bárbaro do lado de fora. Eu me exporto pra lá, transponho as paredes solícitas transgredindo o sermão newtoniano apregoado a colegiais insossos, eu estou do lado de fora, eu sou o lado de lá, eu sou o guincho bárbaro chamando quem se reconhece, a morte é uma puta, diz o Lobo, eu aspiro a abolição dos muros, o despejo das osgas malditas, a desapropriação das taturanas sonolentas, eu sou o muro, concreta e rígida aguardando o choque proposital, o brusco abandono da embreagem e uns segundos confusos e fim, as exéquias incomodando a rotina dos próximos, lamentações e saudades, pesadelos eventuais e fim, o muro está intacto e eu me desincorporo dali, eu persisto numa cidade qualquer, num plano B mal esboçado.

A placidez me excede em múltiplas dimensões, eu verto gritos mal modulados, traída pelas cordas vocais arredias, eu sôo estranhamente aos meus ouvidos, entôo um experimento de última hora, abandono meus óculos e ouço a rouquidão da minha própria voz.

maio 26, 2008

“O medo é uma linha que separa o mundo”

(Lenine)

Desobediente, numa brusca contração puxei o tapete dali. Uma barata correu prevenida, a poeira se espalhou pelo ar. E achei o que buscava, jazia esquecido no chão, quem sabe há quantos anos, o alçapão que um dia ele me prometeu. Iluminei com cuidado seus mofos e ferrugens; pensei sobre qualquer coisa que pude sentir naquele instante – já nem me lembro bem – e então abri.

Os degraus, já meio apodrecidos, desciam numa seqüência repetitiva, devem ranger, pensei. Se despencarem, chego mais rápido, desejei sem admitir. Devia deixar uma marca na madeira cansada, saquei o canivete do bolso e… mas que marca deixar? ISI, arrisquei numa letra incerta de canhoto iniciante. Uma discreta fumaça subiu punindo meus olhos: a ferida fora cauterizada, triunfou a cicatriz, ISI, palíndromo das terminais.

É hora, desço sem olhar nem pra baixo nem pra cima, invento um plano sem falhas, e sigo. Apoiei meus pés sobre o primeiro degrau, um pé após o outro, num movimento ensaiado e elegante de quem já se prepara há tempos. Sequer me lembro se rangeu. Digamos que sim. A madeira rangeu, vacilando sob meu peso. Segundo degrau. Pé direito, pé esquerdo, obedecendo assim a ordem de começos exemplares. A lanterna se apagou, teimosa, irreversível. Quando meus olhos se conformarem, enxergando o que der pra ver, esquecerei que um dia houve lanterna e os degraus não mais rangerão. Terceiro degrau. Pé direi…

é aqui que a história começa

direi… to… das… aquelas estranhas coisas que… acho… que… aconteceram. Pé direito. A voz ecoa pela primeira vez na escada-túnel-fenda que atravesso feito ______. Lumière. Éteindre, num grito firme e suplicante que suponho ser de um barítono delicadamente alcoolizado. Não compreendo, não respondo. Turn off the light, grita numa nova tentativa. Não há luz, há apenas o escuro de fungos crescendo e a umidade e o lodo escorregadio. Turn off the light. Turn off the light. Ouço um soluço entrecortado. Solidária ao desespero daquela voz – minha única companhia possível – rasgo com esforço uma das minhas mangas. Vendo meus olhos. Vistos, vendidos, vendados. Ouço um suspiro apaziguado.

Isi, sou seu único fio, sua única corda do lado de cá. Continue descendo, faltam 9,3 milhas. Você chega ainda hoje. Mesmo porque não há amanhã. Nunca houve. Houve, Isi? Ouve Isi? Pare! Isso não! Não me chame de Isi! Desculpe, prefere então que a chame… Não! Não, isso não, por favor, Isi está bem. Pode me chamar assim. Como queira, Isi, a corda é seu instrumento. Descia cada vez mais veloz, meus pés já previam cada imperfeição dos degraus. Descia. Descia. E agora, quanto falta? Estou chegando? Ainda podia ouvir o eco de minhas indagações quando irrompeu a voz dizendo: 9,3 milhas. Castigo, falha no tempo, no espaço, não importa, prossigo decidida. Pra baixo, que outra direção? Desço.

Isi, conte-me algo íntimo e sujo. Gargalhada. Você sabe que o que disser não sairá daqui, não sabe? Gargalhada mais contida. E já piedoso: Ora Isi, vamos, conte-me algo. Apenas uma história me vinha à mente nesse instante. Como se minha vida tivesse sido toda ela uma mesma cena. Quando era criança, queria pular corda com as outras meninas. Elas passavam horas ali, treinando um desviar infinito, cansava ficar contando cada pulo. Mas na minha vez, era rápido. Meu corpo era todo matéria. A corda batia em mim e caia irritada no chão. As meninas riam e outra já tomava o meu lugar. Um segundo depois, e eu já havia me arrependido de partilhar tudo o que restava em mim com a voz de um beco que desce. Pois tem aqui sua segunda chance, Isi, frase que vagou até meus ouvidos num harmônico incalculável; frase sem eco, sem testemunhas.

Como chegou até aqui, Isi? Respondi sem muita certeza: Um velho amigo me falou do alçapão. E o que você lhe deu em troca, Isi? Eu o ensinei a passar pelas chamas sem queimar a pele. E você, como veio parar aqui? Estou aqui desde sempre. Um feiticeiro condenou a voz de um delator, mas isso foi há muito tempo, antes do sol nascer pela primeira vez. Naquela época, isso que você sente, ninguém sentia. Descia mais tranqüila, então, os passos num automatismo certo; o corpo, tão cansado, apoiava minha determinação, creditando em mim expectativas que certamente me seriam cobradas pouco mais à frente. Cheguei.

Já não sabia caminhar no plano. Descia degraus virtuais tentando acreditar no óbvio. Bem vinda, minha cara Isi. Parei pela primeira vez desde muito tempo, com calma descansava os pés no chão e adaptava meu corpo a um equilíbrio provisório. Sua voz continua longínqua como antes. Só o eco é diferente. O da sua e o da minha voz. Posso tirar a venda? Silêncio. Tirei a venda. Surpresa, me deparei com o mais profundo breu, aquele que ninguém jamais verá. Girei em torno de um eixo criado para tais emergências, constatando trezentos e sessenta graus de breu. Sentei. Deitei. Uma terra fina que ainda hoje aposto ser vermelha, recobria todo o nada que havia ali. Passado o tempo necessário para se subir ou descer algumas tantas vezes nove milhas, meus olhos ainda buscavam, em vão, qualquer acomodação possível – não havia. Assim, abandonei-me exaurida naquele tapete poeirento e adormeci – enquanto a voz, ainda mais delicada que antes, embalava meu sono com uma cantiga que eu ouvia distante, distante…

setembro 26, 2007

“La muerte (o su alusión) hace preciosos y patéticos a los hombres. Estos conmueven por su condición de fantasmas; cada acto que ejecutan puede ser último; no hay rostro que no este por desdibujarse como el rostro de um sueño. Todo, entre los mortales, tiene el valor de lo irrecuperable y de lo azaroso.(…)”

Texto Fortuito (Nº 28)  Para Coleção Fortuita (Única – por enquanto)

Foi só depois da chuva que saí. Sentia o ar úmido querendo dizer alguma coisa, dizer aquilo. Precisava correr, fugir da notícia que se impunha, ser mais veloz que o acaso. E fui. Não ouvi nada – só um som inteligível ao longe, não dizia nada. Nada.

Já posso estancar. Estanco. Estanco o tempo, o fluxo, luxo, o ar daquele aparte de verão. Eis que ouço a voz que fala da voz que cala pela mão–que-bate-na-coxa e…

…silêncio.

Silêncio do intervalo… ou… do começo… ou…

… do fim.

“(…) Entre los Inmortales, en cambio, cada acto (y cada pensamiento) es el eco de otros que en el passado lo antecedieron, sin principio visible, o el fiel presagio de otros que em el futuro lo repetirán hasta el vértigo. No hay cosa que no esté como perdida entre infatigables espejos. Nada puede ocurrir uma sola vez, nada es preciosamente precario.”

(El Inmortal, Jorge Luis Borges)