fevereiro 22, 2012

“Estranho como as coisas acontecem às vezes. Pode-se praguejar e rezar, falar pelos cotovelos e lastimar-se, e nada acontece. Então, justamente quando nos reconciliamos com o inevitável, uma porta falsa se abre, Saturno esquiva-se para outro setor, e o magno problema cessa de ser problema. Ou pelo menos assim parece.

Foi dessa maneira simples, inesperada, que Stasia informou-me um dia, durante uma ausência de Mona, que ia deixar-nos. Se não tivesse ouvido a notícia de seus próprios lábios, eu não teria acreditado nela.”

(Nexus, de Henry Miller)

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setembro 7, 2011

agosto 17, 2011

Enquanto isso eu luto, meu bem, pois é justamente o que se há de fazer. Enquanto isso, no correr das horas apressadas, resgato as forças – que decerto existem, insisto! – e me distraio vez ou outra para que o foco não se dilua pelo vazio das periferias, para que a nitidez não me escape repentinamente ou bem aos poucos, de forma que eu nem sequer me dê conta.

maio 30, 2011

“A questão é que, no final, a vida de todas as pessoas é irredutível a qualquer outra coisa que não ela mesma. O que equivale a dizer: a vida não tem sentido.”

(A trilogia de Nova York, Paul Auster)

março 26, 2011

Quanto àqueles pretextos sob os quais lhe visitava – em geral na escuridão das tardes umedecidas pelo acalento de uma garoa aguda – devo dizer que eram, em essência, sinceros. Devolver-lhe o casaco emprestado em virtude do repentino outono que se pôs a preencher a ausência de temas após o cessar da chuva do fim de semana anterior ou provar o assado de trigo ou o molho que eu alegava desconhecer até então, eram pretextos, confessei já no início, sinceros, também disse, pois a verdade das palavras é um xadrez complexo de aberturas e movimentos dum conjunto finito de possibilidades que se rearranjam permitindo que desfrutemos o pasmo – alegre ou não – pela escolha insuspeitada que faz o outro, maquinando os próximos passos no impenetrável do universo de sua criatividade. Mas naquela época não constava ainda de nossos repertórios – hoje vastos – a imagem que o outro nos oferece quando observados pelo prisma grosso das lágrimas que ensaiam essa valsa disritmada pela textura suave do caminho que as conduz até a simplicidade desses nossos sorrisos.

março 14, 2011

(…) miando aos cantos (não),  à fúria de um tornado (não), miando breve e disperso, lamentando o subúrbio que é esse ruído a rodear a voz amorfa (não sei), resmungando a dor que não lhe aflige (já sei), tecendo a vida num ir e longe de tráfego lento  (já que mais importa esse traslado desconhecido). Sou então a alma dos poros, os poros do brilho secreto do radar de velocidade excedente, o excesso de cal no alto dos muros (sou a alma dos porcos agora, chafurdo a lama da biblioteca do teu coração manso de menino). Verde, esse ímpeto (era um guincho meio elástico aquela forma de pedir licença entre as brumas), dois reais a quem chegar antes do segundo ato de covardia (molha esses cabelos acobreados para que pareçam lisos horas depois do anoitecer, para que pareça belo quando os outros voltarem exaustos de paz, dança a insistência da coreografia que lhe cabe nessa horas), eu, nervoso, à espera da encomenda que devia ter recebido ontem, disseram, que devia ter reclamado noutro setor, disseram, eu, que devia era ter mais paciência, disseram, e ser mais doce e burro, eu acho. Meu rasgo outsider à espreita de.

miando aos cantos (não), à recusa do prazer miserável dos bêbados e loucos (não), dos que morrem sem tocar a beleza uma única vez (in-tan-gí-vel!), porque vi aqueles carros sendo roubados e engano não houve, garanto, (agora vá enquanto rearranjo os retalhos noutra colcha), (corre, penélope, corre e se safa do ódio que já retesa o calcário frouxo do meu ócio, perdão, desejo era o que ia dizer), (o óbvio). Somente. Meu fardo, então, sacolinha de frutas variadas, dúzia do mais puro sincretismo tropical que trago da feira-livre das paixões de amanhã de manhã, daqui a pouco, em fato (torpes, suas referências, nem clareou o céu e quer arrancar outra página da folhinha, que, aliás, é virtual, percebe?, arranca, mas não pode levá-la a parte alguma), (arranca e condena-se a segurar o nada eternidade afora). Engraçado, esse sopro.

março 11, 2011

“Como eu temia por minha própria vida, executei minha infeliz vítima num estilo, se ouso dizer, ordinário e grosseiro. Essas questões de estilo ocupam cada vez mais meus pensamentos, desde que passei a voltar todas as noites ao terreno baldio, para ver se não deixei algum indício que, por causa de minhas obras, possa me trair. Na verdade, essa coisa que é venerada como estilo nada mais é que a imperfeição ou a falha que revela a mão culpada.”

(Orhan Pamuk, Meu nome é vermelho)

março 7, 2011

“Já vira que não era possível arranjar nada com a loira. Não tinha a menor possibilidade de aproximação. E Juan era suficientemente vivido para não sofrer por alguma coisa que estivesse fora de seu alcance.”

(John Steinbeck, O destino viaja de ônibus)

março 6, 2011

(Mas) é precisamente disso que falo, muito embora saiba que você pouco me compreende, mas a compreensão, pensando bem, é o que menos nos vale nessas noites tranquilas, nesses abraços encontrados de vísceras vivas, o entendimento pode bem vir dessas peles que se aceitam sem outras perguntas, do vinho que bebemos juntos sem a pretensão dos diálogos. Deixemos então esse assunto para depois, para nunca mais, quiçá, e nos preocupemos em seguir esse rastro tênue de silêncio, batucando no canto da mesa o ritmo da música que já não toca – tocava antes? Ademais, sabemos o suficiente um sobre os dois, e já nos basta dizer só o necessário para que o timbre de minha voz possa ser de pronto reconhecido por seus sentidos ao meu próximo chamado, e também do contrário, pois, ainda que não nos calquemos na facilidade da simetria, certa dose dela faz-se precisa, tal como a exata coincidência do número de pedras brancas e negras ao início de uma nova partida.

(Porque) você me dispensa da convenção formatada das explicações de fundo, pintando-me num retrato fora da tela que não se expõe a qualquer outro par de olhos, alheios, como os seus, azuis, como os seus, olhos treinados ou fatigados, óleos de técnica ou arte que você alterna em movimentos seguros, grosseiros, até, como se eu nem mesmo estivesse aqui, como se sua gestão lhe permitisse o desperdício de um número na total ausência de luz ou cor, ou, ainda, como se eu pudesse, sozinha, diluir-me pelo auditório imprimindo-lhe a ilusão de uma multidão, ainda que parca e sem líder, ainda que tímida ou rouca, uma módica legião de expectadores atentos a se desinteressar lá pela metade ou aplaudir antes do fim.

(Então) em troca consinto – de bom grado, até – poupar-lhe o dia a dia do continente, reservando-lhe tão-somente fortuitas e caras e breves viagens à nossa movimentada e sólida e flutuante ilha, e só peço que esteja aqui, tendo ainda o rosto apoiado dessa forma sobre o punho direito, quando eu terminar essa história.

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janeiro 2, 2011

“Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse ‘para onde estamos indo?’ –  não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ‘estamos indo sempre para casa’.”

(Raduan Nassar, Lavoura arcaica)